Lá estava eu em casa, um fedelho de uns 13 anos. Naquela época, 1993 ou coisa assim, pai e mãe ainda não estavam separados. Vida de estudante que morava a um quarteirão da escola. Tranquilo, com muito tempo em casa. Muitas vezes, sozinho. Antes de entrar no assunto do texto, voltemos um pouco.
Desde sempre, músicas dos Beatles rolaram em casa. Apesar de não ter consciência do que era aquilo, eu os ouvia, porque meus pais, mais o pai do que a mãe, ouviam muito. Algumas melodias ficaram gravadas na mente do pequeno que eu era, notadamente aquelas com melodias infantis, que os famosos quatro de Liverpool eram pródigos em fazer. "Yellow Submarine" seria o óbvio, mas acho que os refrões de "Maxwell´s Silver Hammer" e "The Continuing Story Of Bungalow Bill" me marcaram mais nessa época que eu nem sabia o que estava ouvindo.
Voltemos ao futuro, ou melhor, ao passado, mas não tão passado. A 1993, onde eu comecei essa porra de texto. Certo dia, do qual não me lembro perfeitamente, provavelmente sozinho em casa, comecei a mexer nos discos de meu pai. Peguei um LP quase todo branco, com quatro homens fazendo gestos com os braços. Chamava-se "Help!". Coloquei aquilo na vitrola pra ver do que se tratava. Acho que vale um adendo: nessa idade nossos gostos musicais estão sendo burilados. Eu ouvia de um tudo. Até Chitãozinho e Xororó. Que são bons no que fazem, diga-se. Meu pai e minha mãe nunca foram tiranos, em nada, muito menos em música. Não me forçaram a gostar de música boa, da música que eles gostavam. A coisa foi natural. Mas tergiverso. Fato é que, daquele dia em diante, fiquei fã. Não dos Beatles, em princípio. Fiquei fã do "Help!". Ouvia o "Help!" todo dia, mais de uma vez por dia.
Eu disse antes que meu pai era mais fã dos Beatles do que minha mãe. Mas tenho uma memória belíssima em relação a "Help!" e à minha mãe. Fui ajudá-la com as compras no Carrefour, único supermercado de São José dos Campos à época. Era o início da era dos CD´s, que acabariam por exterminar os LP´s, mas que também não durariam muito, sendo exterminados por...bem, por nada, por um consumo de música sem critério e sem fichas técnicas, que reprovo, mas entendo como natural da evolução (ou involução?) humana. No referido mercado, demos uma passada pelo setor musical, onde vi o cd do "Help!". Acho que fiz algum comentário, mas passamos batido. Pouco depois, quando começávamos as compras de fato, olho para o carrinho e percebo, maravilhado, que o cd estava lá dentro, dançando sozinho, sem mais nenhuma compra ao seu lado. Mamãe tinha pego um, sem que eu percebesse. Foi meu primeiro cd dos Beatles.
A partir daí, não parei mais. Depois do "Help!", parti para os outros discos da bandinha. Ia pegando um por um, em casa, maravilhado com cada descoberta que fazia. Não sabia a ordem que os discos haviam saído, apenas ia pegando o que estava ali na estante, e degustando, sentindo os sabores. Ah, que inveja daquele menininho, ouvindo pela primeira vez, com atenção, às peças saídas das cabecinhas cabeludas daqueles quatro. Ouvi cada LP incessantemente. Traduzi grande parte das canções com a ajuda de um dicionário, e posso dizer que os Beatles são parcialmente responsáveis pelo meu razoável domínio da língua inglesa.
De lá pra cá, virei beatlemaníaco. Não sei quando uma pessoa deixa de "gostar dos Beatles", ou "achar os Beatles legais pra caralho", e vira beatlemaníaco.
Se alguém me disser "Ring my friend I said you call...", eu vou dizer "Dr Robert!". Quando atendo velhinhos lá no banco, fico procurando alguém que tenha nascido em 09 de outubro de 1940, como John Lennon. Ainda não encontrei. Imitando meu amigo Lucas Nanini, também beatlemaníaco, quando alguém me pergunta a maior banda da Terra, eu respondo Belle & Sebastian (ele responde Led Zeppelin), porque os Beatles estão em um patamar acima. Noel Gallagher (vocalista e compositor da banda Oasis, que Deus a tenha) disse que das 50 maiores músicas pop de todos os tempos, 49 são dos Beatles, e a 50ª é "Wonderwall", da banda ele, e é mais ou menos o que penso, tirante o fato de que "Wonderwall" perderia lugar na 50ª posição para "Sexy Sadie".
São coisas assim que fazem um beatlemaníaco, acho. E por esse privilégio agradeço aos óbvios John, Paul, George e Ringo. E aos menos óbvios papai e mamãe.