Às vezes a paz aparece. É como uma entidade. Ela
simplesmente está ali. Não depende exatamente da gente. Depende de uma
quantidade grande de fatores, entre os quais o saber-se quem é. Sim, saber-se
quem é. Eu sou esse cara. Saber-se defeitos, qualidades, erros infantis,
acertos perfeitos. Ter um amor, e saber, por um instante, que ele é forte,
também ajuda.
Disse o Cartola, em canção que fez com Elton Medeiros:
“Um vazio se faz em meu peito
E de fato eu sinto em meu peito um vazio”
Pode ser que pensem que Cartola estava sendo redundante. Mas
Cartola estava só sendo enfático. Quando você ama alguém, e está
momentaneamente sem este amor, você sente esse tal vazio, que faz as coisas
empalidecerem por um tempo. Se o tempo for suficiente, e sua mente for poderosa
o bastante pra aguentar, pode ser que o tal tempo passe, e você já não sinta o
vazio, consiga preencher o vazio com outras coisas, outros objetos, outras
carícias, até. Sorte a sua.
Todavia, se o amor ainda está, e você consegue sentir o seu
fluxo, indo e vindo em suas veias, e tudo parece bem, e o momento parece bom,
te digo, nada pode ser melhor. Basta se deixar levar, mesmo que seja efêmero,
mesmo que a dureza, e não o bálsamo, seja a regra. Viver o amor, até a última
gota, até que não haja mais o que sorver. E quem sabe, de tanto sorver, talvez
você acabe morrendo, velhinho, e ainda amando, e ainda vermelho de paixão,
curioso, atento, ansioso, perplexo por fazer durar o que parecia tão finito.