Interessante como ler a biografia
de alguém nos faz ficar próximos do biografado. É batata: você lê a biografia
da pessoa, e em seguida fica sedento pra se aprofundar melhor no trabalho, se
for um artista, ou no mínimo fica se sentindo íntimo, e quando o dito cujo
aparece na TV ou coisa assim, você olha com um carinho estranho: “E aí, como
você tá, rapaz? Estava com saudades”, parecemos dizer.
Terminei há pouco tempo a
biografia do cineasta Roman Polanski, livro que me foi presenteado por meu
irmão. Romek era o apelido dele (do Polanski, não do meu irmão, que fique claro) na Polônia, e pelo título desse texto já dá pra
notar que eu estou íntimo do diretor.
Poucas vidas se prestam mais a uma biografia
do que a desse cara. Judeu nascido na França em 1933, mas criado na Polônia, já
dá pra imaginar no que deu. Hitler chegou, levou pai e mãe (esta acabou
morrendo nos campos de concentração, grávida de oito meses), e Polanski passou
a infância fugindo, depois que seu pai conseguiu tirá-lo do gueto. Depois da
guerra fez faculdade de cinema, dirigiu alguns curtas, e seu primeiro longa,
“Faca na água” (1962) já foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Depois de
alguns filmes e o estrondoso sucesso de “O bebê de Rosemary” (1968), uma
tragédia: sua esposa Sharon Tate, grávida de nove meses, foi assassinada na
casa dos dois, juntamente com mais alguns amigos, por membros da Família
Manson, uma seita se maníacos chefiada por Charles Manson. Pouco menos de dez
anos depois, Polanski foi condenado por “relação sexual ilícita com uma menor
de 13 anos”. O diretor fugiu dos Estados Unidos antes que pudesse ser preso, e
desde então é considerado um fugitivo da justiça dos EUA. Ele vive na França
desde então, e recentemente acabou sendo preso na Suíça, quando foi receber um
prêmio, sob a alegação de que havia um mandado internacional de prisão contra
ele. Foi solto alguns meses depois.
Mas fato é que, no meio de tudo
isso, Polanski dirigiu filmes. Alguns geniais, outros nem tanto. Por conta da
vida atribulada, dirigiu até o momento apenas 19 longas, se não contarmos os
que ainda estão em fase de produção ou pós-produção. Me propus a ver todos que
pudesse achar, com a ajuda da Vídeo Vip, a minha locadora de velharias. Pra
minha sorte, e surpresa, encontrei 18 dos filmes, ficando de fora apenas
“Piratas”, que Roman dirigiu em 1986, e que foi um fracasso tremendo.
Assisti aos filmes entre os dias
12/03/2013 e 04/04/2013. Classifiquei-os por ordem de preferência, e divulgo a
lista abaixo, do pior para o melhor, com pequenos comentários sobre cada um
deles. Ao final de cada comentário, o “fator peitinho”, uma das obsessões de
Romek.
Segue a lista:
18º - A Dança dos Vampiros (1967) – Romek, que bela merda, hein?
Apesar da direção de arte competente, não dá pra saber se é terror, comédia,
romance, suspense ou drama. Falta história ao filme. Parece que você chamou os
atores, queria fazer um filme sobre vampiros, mas não tinha um enredo. Aí
filmou isso aqui mesmo. Peitinho da Sharon Tate.
17º - O Último Portal (1999) – Pôxa, Romek, não é que seja
terrível, é um bom filme de suspense. Mas poderia ter sido dirigido por
qualquer um. Não parece um filme seu, e apesar de dividir a temática com “O
bebê de Rosemary”, não chega nem perto do seu clássico. Peitinho da dublê de
Lena Olin.
16º - Oliver Twist (2005) – Tá, eu entendo, você queria fazer um
filme que seus filhos pudessem ver. Ok. Mas não é sua praia, concorda? E aí o
filme tem criança apanhando, sofrendo, um homem matando sua esposa, o sangue
escorrendo. Essa é sua idéia de filme pra criança? Porra, Romek! Mas o pior é que
falta emoção, o filme é frio, e não deveria ser. Sem peitinho (só faltava,
né?).
15º - Busca Frenética (1988) – Gosto muito do começo desse filme,
de como você construiu o clima de tensão em uma viagem de um casal à França, em
que tudo parece bem, mas sabemos que algo vai acontecer. Depois, vira um
thriller apenas competente. Mais uma vez, esperamos mais de você, por isso a
decepção. Peitinho da Emmanuelle Seigner.
14º - A Faca na Água (1962) – Acho que não é demérito nenhum este
filme estar nessa posição. Foi uma estréia ousada e eficiente esta sua,
mostrando já alguns dos temas que estariam presentes mais pra frente na sua
carreira, além de sua maestria e estilo. Peitinho da Jolanta Umecka.
13º - Repulsa ao Sexo (1965) – Catherine Deneuve como uma frígida
homicida. Um filme angustiante, e quase mudo. Você disse tudo através dos olhos
de sua protagonista. Em seu segundo filme, um pequeno gênio começava a
aparecer. Sem peitinho de La Deneuve.
12º - O Inquilino (1976) – Forma com “O bebê de Rosemary” e “Repulsa
ao sexo” a sua “Trilogia do Apartamento”. A loucura chegando aos poucos para
seu protagonista, que é interpretado por você mesmo. Sacaninha. Era só pra
beijar a Isabelle Adjani, né? Mas sem peitinho.
11º - O Deus da Carnificina (2012) – Boa escolha de atores, Seu
Romek. Com Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reily era difícil
errar, não? O texto também era bom, de uma peça de sucesso. Enfim, tiro certo.
Méritos seus pelo tiro. E sem peitinho, apesar de Winslet aparecer de sutiã.
10º - Macbeth (1971) – Logo depois daquela tragédia na sua vida, do
assassinato da sua esposa, você me faz Macbeth? Com sua trama de assassinatos,
estupros, traições e loucura? Admiro sua coragem. O filme é perfeito, ótima
reconstituição de época, boas atuações, direção segura. E um textinho bom,
baseado num tal de Shakespeare. Peitinho (e tudo o mais) de Francesca Annis.
9º - A Morte e a Donzela (1994) – A primeira vez que vi esse filme,
com 17 anos, seus temas eram muito difíceis pra mim. A revisão me mostrou um
grande estudo sobre a vingança e os traumas que a tortura faz na alma. E você
mandou bem, porque com apenas três personagens fez um filme que não fica chato
nunca. Peitinho de Sigourney Weaver.
8º - Armadilha do Destino (1966) – Apenas seu terceiro filme, e pra
mim a sua maturidade como artista. Um tema parecido com o de seu primeiro filme
(a disputa entre dois machos por uma fêmea que nem está assim tão interessada
em nenhum dos dois), mas com mais recursos financeiros, e uma história mais
elaborada. Peitinho de Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve.
7º - O Escritor Fantasma (2010) – Pequeno Romek, aqui você
encontrou o equilíbrio perfeito que o suspense pede pra que continue suspense e
não fique chato. Sabe, não é tão fácil. Você mesmo já errou nisso. Gosto de
suas escolhas no filme, dos atores aos cenários. E adoro esse final, provavelmente
o seu melhor. Poético e triste. E sem peitinho.
6º - Quê? (1972) – Eu sei, Romek, até você se surpreendeu agora.
“Quê?” é um de seus filmes menos famosos, menos apreciados, etc e etc. Mas eu
simplesmente adorei essa comédia maluca e surreal. E me diverti muito com ela.
“Alice no País de Polanski” é como eu a chamaria. E ela termina sugerindo seu próprio nome. Genial.
Peitinho (durante todo o filme) de Sydne Rome.
5º - Lua de Fel (1992) – Outro filme que eu vi muito novo, e era
incapaz de captar em toda sua complexidade de temas. Forte, por vezes cafona,
às vezes até um pouco fabulesco, e por fim trágico, este é um filme
inesquecível. Sei que também não é comumente considerado um clássico seu, mas
pra mim é. Talvez o apreço de minha namorada pelo filme tenha contribuído, confesso, Romek. E, me
desculpe dizer, sua esposa está magnífica no filme, em vários aspectos. Aliás,
peitinho de Emmanuelle Seigner.
4º - Tess – Uma Licão de Vida (1979) – Romek, peço desculpas pelo
subtítulo nacional, realmente desnecessário. Tess já é suficiente, e a história
dessa mulher é um épico emocional e trágico, que você adaptou com maestria para
as telas. E apresentou ao mundo Nastassja Kinski, com uma grande atuação. E que
raiva dos dois personagens masculinos que fodem com a vida dela! Peitinho de Nastassja
Kinski, dando de mamar.
3º - O Pianista (2002) – Tá, Romek, eu sei que esse é seu filme
preferido entre os seus. Mas pra mim ele fica num honroso 3º lugar. Seu retrato
dos horrores da segunda guerra, sem concessões, é absurda e tristemente
realista, graças a sua atenção aos detalhes. Saímos do filme horrorizados, mas
cientes de termos visto um espetáculo dirigido por um grande artista. O final
feliz que você se permite é fazer seu protagonista sobreviver. E, claro, sem
peitinho.
2º - O Bebê de Rosemary (1968) – Outro que foi uma delícia rever.
Visto pelo primeira vez, aos 19 anos, eu achei ele muito bom. Revisto aos 32,
achei uma obra-prima. A maneira como você constrói o clima de suspense, como
Mia Farrow vai mudando de aparência a medida que sua paranoia aumenta, como ela
vai montando o quebra-cabeça satânico e nós vamos juntos com ela, refletem seu
gênio. Isso sem falar nos contrastantes créditos iniciais em rosa, pra gente
achar que tudo ia dar certo. Peitinho da dublê da Mia Farrow.
1º - Chinatown (1974) – Esse é um caso curioso. Quando eu tinha 17
anos recém-feitos, o vi pela primeira vez, sabendo que era um clássico. Gostei
bastante, mas achei confuso. Tolinho que eu era, achei que a trama envolvendo
falta de água, empresários gananciosos e etc, fossem o principal do filme. Não são mesmo.
Renovando a tradição do cinema noir, seu filme é mais sobre personagens, e
sobre a constatação da sordidez do mundo. Um personagem querendo fazer a coisa
certa em um mundo absolutamente amoral e corrompido. E ele não consegue, como
quase nunca ninguém consegue em seus filmes. É chover no molhado dizer que Jack
Nicholson está soberbo, que Faye Dunaway nunca esteve tão bem, entre outras
coisas. Tá, vou te poupar dos clichês. Puta filme do caralho, Sr Polanski! E
peitinho da Faye Dunaway...