segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Pequeno Romek


Interessante como ler a biografia de alguém nos faz ficar próximos do biografado. É batata: você lê a biografia da pessoa, e em seguida fica sedento pra se aprofundar melhor no trabalho, se for um artista, ou no mínimo fica se sentindo íntimo, e quando o dito cujo aparece na TV ou coisa assim, você olha com um carinho estranho: “E aí, como você tá, rapaz? Estava com saudades”, parecemos dizer.

Terminei há pouco tempo a biografia do cineasta Roman Polanski, livro que me foi presenteado por meu irmão. Romek era o apelido dele (do Polanski, não do meu irmão, que fique claro) na Polônia, e pelo título desse texto já dá pra notar que eu estou íntimo do diretor.

 Poucas vidas se prestam mais a uma biografia do que a desse cara. Judeu nascido na França em 1933, mas criado na Polônia, já dá pra imaginar no que deu. Hitler chegou, levou pai e mãe (esta acabou morrendo nos campos de concentração, grávida de oito meses), e Polanski passou a infância fugindo, depois que seu pai conseguiu tirá-lo do gueto. Depois da guerra fez faculdade de cinema, dirigiu alguns curtas, e seu primeiro longa, “Faca na água” (1962) já foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Depois de alguns filmes e o estrondoso sucesso de “O bebê de Rosemary” (1968), uma tragédia: sua esposa Sharon Tate, grávida de nove meses, foi assassinada na casa dos dois, juntamente com mais alguns amigos, por membros da Família Manson, uma seita se maníacos chefiada por Charles Manson. Pouco menos de dez anos depois, Polanski foi condenado por “relação sexual ilícita com uma menor de 13 anos”. O diretor fugiu dos Estados Unidos antes que pudesse ser preso, e desde então é considerado um fugitivo da justiça dos EUA. Ele vive na França desde então, e recentemente acabou sendo preso na Suíça, quando foi receber um prêmio, sob a alegação de que havia um mandado internacional de prisão contra ele. Foi solto alguns meses depois.

Mas fato é que, no meio de tudo isso, Polanski dirigiu filmes. Alguns geniais, outros nem tanto. Por conta da vida atribulada, dirigiu até o momento apenas 19 longas, se não contarmos os que ainda estão em fase de produção ou pós-produção. Me propus a ver todos que pudesse achar, com a ajuda da Vídeo Vip, a minha locadora de velharias. Pra minha sorte, e surpresa, encontrei 18 dos filmes, ficando de fora apenas “Piratas”, que Roman dirigiu em 1986, e que foi um fracasso tremendo.

Assisti aos filmes entre os dias 12/03/2013 e 04/04/2013. Classifiquei-os por ordem de preferência, e divulgo a lista abaixo, do pior para o melhor, com pequenos comentários sobre cada um deles. Ao final de cada comentário, o “fator peitinho”, uma das obsessões de Romek.

Segue a lista:

18º - A Dança dos Vampiros (1967) – Romek, que bela merda, hein? Apesar da direção de arte competente, não dá pra saber se é terror, comédia, romance, suspense ou drama. Falta história ao filme. Parece que você chamou os atores, queria fazer um filme sobre vampiros, mas não tinha um enredo. Aí filmou isso aqui mesmo. Peitinho da Sharon Tate.

17º - O Último Portal (1999) – Pôxa, Romek, não é que seja terrível, é um bom filme de suspense. Mas poderia ter sido dirigido por qualquer um. Não parece um filme seu, e apesar de dividir a temática com “O bebê de Rosemary”, não chega nem perto do seu clássico. Peitinho da dublê de Lena Olin.

16º - Oliver Twist (2005) – Tá, eu entendo, você queria fazer um filme que seus filhos pudessem ver. Ok. Mas não é sua praia, concorda? E aí o filme tem criança apanhando, sofrendo, um homem matando sua esposa, o sangue escorrendo. Essa é sua idéia de filme pra criança? Porra, Romek! Mas o pior é que falta emoção, o filme é frio, e não deveria ser. Sem peitinho (só faltava, né?).

15º - Busca Frenética (1988) – Gosto muito do começo desse filme, de como você construiu o clima de tensão em uma viagem de um casal à França, em que tudo parece bem, mas sabemos que algo vai acontecer. Depois, vira um thriller apenas competente. Mais uma vez, esperamos mais de você, por isso a decepção. Peitinho da Emmanuelle Seigner.

14º - A Faca na Água (1962) – Acho que não é demérito nenhum este filme estar nessa posição. Foi uma estréia ousada e eficiente esta sua, mostrando já alguns dos temas que estariam presentes mais pra frente na sua carreira, além de sua maestria e estilo. Peitinho da Jolanta Umecka.

13º - Repulsa ao Sexo (1965) – Catherine Deneuve como uma frígida homicida. Um filme angustiante, e quase mudo. Você disse tudo através dos olhos de sua protagonista. Em seu segundo filme, um pequeno gênio começava a aparecer. Sem peitinho de La Deneuve.

12º - O Inquilino (1976) – Forma com “O bebê de Rosemary” e “Repulsa ao sexo” a sua “Trilogia do Apartamento”. A loucura chegando aos poucos para seu protagonista, que é interpretado por você mesmo. Sacaninha. Era só pra beijar a Isabelle Adjani, né? Mas sem peitinho.

11º - O Deus da Carnificina (2012) – Boa escolha de atores, Seu Romek. Com Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reily era difícil errar, não? O texto também era bom, de uma peça de sucesso. Enfim, tiro certo. Méritos seus pelo tiro. E sem peitinho, apesar de Winslet aparecer de sutiã.

10º - Macbeth (1971) – Logo depois daquela tragédia na sua vida, do assassinato da sua esposa, você me faz Macbeth? Com sua trama de assassinatos, estupros, traições e loucura? Admiro sua coragem. O filme é perfeito, ótima reconstituição de época, boas atuações, direção segura. E um textinho bom, baseado num tal de Shakespeare. Peitinho (e tudo o mais) de Francesca Annis.

9º - A Morte e a Donzela (1994) – A primeira vez que vi esse filme, com 17 anos, seus temas eram muito difíceis pra mim. A revisão me mostrou um grande estudo sobre a vingança e os traumas que a tortura faz na alma. E você mandou bem, porque com apenas três personagens fez um filme que não fica chato nunca. Peitinho de Sigourney Weaver.

8º - Armadilha do Destino (1966) – Apenas seu terceiro filme, e pra mim a sua maturidade como artista. Um tema parecido com o de seu primeiro filme (a disputa entre dois machos por uma fêmea que nem está assim tão interessada em nenhum dos dois), mas com mais recursos financeiros, e uma história mais elaborada. Peitinho de Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve.

7º - O Escritor Fantasma (2010) – Pequeno Romek, aqui você encontrou o equilíbrio perfeito que o suspense pede pra que continue suspense e não fique chato. Sabe, não é tão fácil. Você mesmo já errou nisso. Gosto de suas escolhas no filme, dos atores aos cenários. E adoro esse final, provavelmente o seu melhor. Poético e triste. E sem peitinho.

6º - Quê? (1972) – Eu sei, Romek, até você se surpreendeu agora. “Quê?” é um de seus filmes menos famosos, menos apreciados, etc e etc. Mas eu simplesmente adorei essa comédia maluca e surreal. E me diverti muito com ela. “Alice no País de Polanski” é como eu a chamaria. E ela  termina sugerindo seu próprio nome. Genial. Peitinho (durante todo o filme) de Sydne Rome.

5º - Lua de Fel (1992) – Outro filme que eu vi muito novo, e era incapaz de captar em toda sua complexidade de temas. Forte, por vezes cafona, às vezes até um pouco fabulesco, e por fim trágico, este é um filme inesquecível. Sei que também não é comumente considerado um clássico seu, mas pra mim é. Talvez o apreço de minha namorada pelo filme  tenha contribuído, confesso, Romek. E, me desculpe dizer, sua esposa está magnífica no filme, em vários aspectos. Aliás, peitinho de Emmanuelle Seigner.

4º - Tess – Uma Licão de Vida (1979) – Romek, peço desculpas pelo subtítulo nacional, realmente desnecessário. Tess já é suficiente, e a história dessa mulher é um épico emocional e trágico, que você adaptou com maestria para as telas. E apresentou ao mundo Nastassja Kinski, com uma grande atuação. E que raiva dos dois personagens masculinos que fodem com a vida dela! Peitinho de Nastassja Kinski, dando de mamar.

3º - O Pianista (2002) – Tá, Romek, eu sei que esse é seu filme preferido entre os seus. Mas pra mim ele fica num honroso 3º lugar. Seu retrato dos horrores da segunda guerra, sem concessões, é absurda e tristemente realista, graças a sua atenção aos detalhes. Saímos do filme horrorizados, mas cientes de termos visto um espetáculo dirigido por um grande artista. O final feliz que você se permite é fazer seu protagonista sobreviver. E, claro, sem peitinho.

2º - O Bebê de Rosemary (1968) – Outro que foi uma delícia rever. Visto pelo primeira vez, aos 19 anos, eu achei ele muito bom. Revisto aos 32, achei uma obra-prima. A maneira como você constrói o clima de suspense, como Mia Farrow vai mudando de aparência a medida que sua paranoia aumenta, como ela vai montando o quebra-cabeça satânico e nós vamos juntos com ela, refletem seu gênio. Isso sem falar nos contrastantes créditos iniciais em rosa, pra gente achar que tudo ia dar certo. Peitinho da dublê da Mia Farrow.

1º - Chinatown (1974) – Esse é um caso curioso. Quando eu tinha 17 anos recém-feitos, o vi pela primeira vez, sabendo que era um clássico. Gostei bastante, mas achei confuso. Tolinho que eu era, achei que a trama envolvendo falta de água, empresários gananciosos e etc,  fossem o principal do filme. Não são mesmo. Renovando a tradição do cinema noir, seu filme é mais sobre personagens, e sobre a constatação da sordidez do mundo. Um personagem querendo fazer a coisa certa em um mundo absolutamente amoral e corrompido. E ele não consegue, como quase nunca ninguém consegue em seus filmes. É chover no molhado dizer que Jack Nicholson está soberbo, que Faye Dunaway nunca esteve tão bem, entre outras coisas. Tá, vou te poupar dos clichês. Puta filme do caralho, Sr Polanski! E peitinho da Faye Dunaway...





sábado, 6 de abril de 2013

Segunda-feira




Eu não queria ir e não tinha argumento pra justificar isso. É caro. "Tenho de estudante, menos de 100 pilas". É longe. "É onde você gosta de estar e tem casa pra ficar". Não gosto de multidão. "É arquibancada, bobo, sentadão". Não sei se mereço. "Vá pra merda".

Eram 7 da manhã e chovia horrores na cidade mais bonita do mundo. Era domingo. Aos domingos também chove na cidade mais bonita do mundo. O ônibus quase vazio passa pelas Laranjeiras, e sorrio, tá ali o Flu, depois vem Flamengo, Botafogo, olha a Urca lá no fundo, sinto Copacabana por perto. Meu mp3 tem 35 músicas. Retorcidas e repetidas à exaustão em meus ouvidos solitários, e todas dele, do cara ali.

Meu amigo, fraterno mas sem abraços, abriu-me sua residência e eu estava há duas quadras, não da praia de Copacabana, mas dele. Isso me perturbava mais que a chuva. Que diminuiu, mas não deu praia. Na Globo, Palmeiras x Botafogo, meus amigos se arrumam e vão ao encontro dele.

O meu ingresso é de segunda-feira. O Palmeiras ganha, 1x0, visto a camisa e ando duas quadras. Copacabana Palace. Frenesi, jovens esperando que ele saia, e parta para o show. Sorrio em ver minha geração emulando outras. É parecido com o que já se viu nos vídeos por aí.

Um KFC e umas cervejas depois, volto pra casa, mas não tenho como assistir ao show, ao vivo e em HD, a um clique via internet. Trapaça, spoiler. Peço pra não me contarem nada, quando voltam eufóricos. "Melhor dia da vida", se limita um deles.

MP3 carregado, faz sol, é segunda, é hoje, e eu tomo sol a manhã toda, sozinho, eu e as 35 músicas, na frente do hotel dele. Bom, eu estou de sunga há 100 metros dele, isso há de ter sua relevância reconhecida. Almoço num bar com ambiente de Copa do Mundo. Dúzias e dúzias de pessoas, todas com roupas dele, bandeiras dele, dos Beatles, comem, cantam, fotografam. Eu sorrio tenso.

O encontro com meu caro amigo curitibano se dá 16h. Atrasamos. Mas lá estávamos, ainda dia, já na fila, como está o Paraná, como está SP, e o Coxa, e o Porco, entramos, 18h, para quatro intermináveis horas, eu, ele, seu irmão, uma garota que já não lembro o nome. Não tínhamos assunto, simplesmente. Lotou.

Ele aparece, suspensórios e acenos, e eu não mais sorrio. Tento lembrar quando foi que ele deixou de ser alguém que gostava para virar isso tudo dentro de mim. Doeu. Queria minha mãe ali, e o Marcílio, o Feu, queria desfrutar mas não era bem o que dava pra fazer. Chorei bastante na bandeira brasileira que o curitibano levou e não teve onde amarrar. Ver o Paul McCartney no Rio de Janeiro é mais que ver uma Final de Copa. E foi mais do que eu podia supor. Foi potente, e longo, e sobretudo bonito. Shows são caros no Brasil. Momentos inesquecíveis em uma vida não tem preço.

Saem abraçadas as várias gerações presentes no estádio. Cantam Hey Jude na rampa em caracol. Compro o broche mais feio da história para levar até mamãe. Encontro meu anfitrião. Ele foi de novo, no impulso, via cambista. Voltamos pro nosso bairro, nosso e do Paul, devoramos uma pizza, 2 litros de Coca, e caminhamos pra casa. Antes, paramos na frente do hotel.

Esperamos por algo, por alguns minutos. Tudo podia acontecer, eu achava que ele já estava lá, meu amigo achava que não. Seja como fosse, não o veríamos, não mais do que já havíamos visto. É essa coisa forte que a gente tem, que não sei como se chama, que faz uma fachada de hotel ser contemplada à espera de efetivamente nada. Ritos, gestos devotos, declarações de amor. Gratidão pelos 4 únicos homens que realmente mudaram o mundo.