domingo, 27 de janeiro de 2013

Resposta ao primeiro post deste novo blog

Era um feriado prolongado, e eu fiquei sozinho em casa. Namorada no Rio de Janeiro, mãe na Praia Grande. Acho que era um sábado, e minha vontade era beber umas cachaças enquanto ouvia música. Simplesmente iria passar pelos meus cd´s, ouvindo uma ou duas músicas de cada, enquanto me embriagava. É uma sensação deliciosa beber quando se está com o espírito tranquilo, como era meu caso. Eu iria deixar a música entrar pelos meus poros, sentindo aquele leve torpor que o álcool dá.

Fui então ao supermercado, porque precisava de algo pra forrar meu estômago, uns piriris, pra comer enquanto tomava minhas caipirinhas. Cheguei ao estacionamento do mercado, e havia ali uma Kombi de entrega de mercadorias, ou coisa assim. Quando eu passei pra entrar no mercado, tocava "The winner takes it all", do ABBA, no som do veículo. Gostei de ouvir aquela canção, parecia já um começo da minha programação. "É raro alguém ouvindo ABBA, deve estar tocando no rádio", pensei. Um vez dentro do mercado, acho que acabei comprando os famosos nuggets, ou coisa que o valha, além de uns espetinhos de salsicha, azeitona e ovo de codorna, que me custaram 20 paus. Ainda cantarolando "The winner takes it all", saio do mercado, e a mesma Kombi permanecia estacionada, agora tocando "Mamma Mia!", também do ABBA. Senti uma alegria boba, apenas por saber que o cara estava ouvindo um cd, ou um MP3, que seja, do ABBA. Sorri sozinho.

Cheguei em casa e comecei a me preparar pra noitada. Fiz minha primeira caipirinha e dei um gole inicial. Numa fração de segundos, muitas coisas passaram pela minha cabeça, como "caralho, o limão tá estragado", "tô com alguma doença e perdi meu paladar!" e "puta que o pariu, essa cachaça deve ser gasolina!", até que, completando um segundo e meio de raciocínio, me veio o óbvio: "Caraleo, fiz a caipirinha com sal!". Gargalhei. Literalmente, e muito. É conselho: nunca façam uma caipirinha com sal no lugar de açucar. Quando o cara criou a caipirinha ele deve ter tentado isso, mas descartou a idéia rapidamente.

Já instalado no meu pufe, com minha caipirinha feita com limão, cachaça, açucar e gelo do lado, comecei a ouvir música. Em uma delas, me lembrei do Bill. Sei que ele gosta da música, chamada "Adia", cantada pela Sarah McLachlan. Mandei SMS pro referido caboclinho, dizendo algo como "Ei rapaz, ouvi Adia e lembrei de você". Fazia um tempo que eu não falava com ele, estava com saudades, e depois de mandar a mensagem comecei a pensar no nosso Monolito. Começou a me dar vontade de escrever de novo, junto com ele, como tínhamos deixado de fazer não se sabe bem porquê. Não liguem, eu até hoje não aprendi a usar aqueles quatro "porques" que a língua portuguesa tem. O fato é que pensei "se ele me responder a mensagem, vou falar pra gente retomar o Monolito". Ele não respondeu, e meu metodismo me disse que, se ele não respondeu, não era pra ser, então não falei mais nada.

Até que, no Natal, me veio esse texto aí abaixo, "Novo de novo", de presente. E eu pensei que as coisas acontecem quando tem que acontecer, por besta que pareça isso. A gente põe sal no lugar de açucar quando está precisando dar uma boa gargalhada. A gente ouve ABBA no carro de entrega do mercado, ao invés do Luan Santana ou do Michel Teló, quando o que precisamos é de beleza na noite. Só temos que estar atentos a ela. Estamos de volta, caro primo. Às belezas, às tristezas. Estamos de volta, sim, caro irmão.

domingo, 20 de janeiro de 2013

O silêncio que precede a explosão


É um burburinho e não é como a praça de alimentação de um shopping, mas harmônico e ritmado. Altos e baixos consonantes que quase matam aquele que, sem os olhos, só tem os ouvidos e só pode escutar aquilo que na verdade precisava ver para dar sorte, ver para crer. O reino dele por uma onda de gritos que venha lá de dentro e que num eco capaz de tremelicar o bairro consagre as duas horas, ou mais, de espera irredutível.

Muitos andam perdidos como ele. Somando pessoas e fantasmas temos uma multidão. Outros sentam, num inevitável tédio, comidos pela sensação de que a eternidade vai chegar antes do gol. O pipoqueiro está indiferente e alheio. É um alienígena no conceito dos demais. O policial não pode nem ligar o rádio e colocar o fone, e mesmo que pudesse, quem aguenta? Poucos suportam o drama que os narradores criam, cruéis, armados pela suposição que o ouvinte não tem outra saída que não seja acreditar no que ele diz.

Por vezes penso que namoradas de narradores de rádio nunca se recuperam. As construções de cenários desnecessariamente eletrizantes, a condução do fluxo de consciência rumo ao enfarto, a visão de mundo espetacularizada de momentos comuns, isso tudo deve deixar sequelas, tão quanto o futebol deixa - e como deixa, saiba você que depois de um certo número de jogos vistos toda quina e todo pedaço de ferro ou couro e todo batente e todo retângulo e toda meia-lua lembram futebol no primeiro reflexo mental.

Três admiráveis garotas com o estereótipo de um shopping, e não de um estádio, emolduram a universalidade do momento e sofrem na sarjeta. Os óculos escuros, os inhôcos nos cabelos para prendê-los e afastar o calor que vem de dentro pra fora, as bolsas esparramadas na calçada e a angústia que em corpos femininos fica tão mais dramático e fidagal. Uma delas ajoelha vez ou outra. As demais parecem entregues, paralisadas como se nada mais houvesse a ser feito, o que não as impelia, entretanto, a irem embora. Pois o futebol é a fé do ateu e a casa de praia dos milagres dessa vida.

Lá está o careca que comprou ingresso falso e deu entrevista babando, literalmente babando de raiva, para uma jornalista que, coitada, tem acesso ao estádio e não pode entrar, tampouco dar pro careca. Dar a entrada à arquibancada, claro. Ele anda pra lá e pra cá, ou então são muitos carecas que lá estão. É notável o número de carecas que acompanham este esporte, não tenho estudos mas na certa a porcentagem de carecas que amam futebol é maior que a de cabeludos.

O careca, e todos os outros, viram algumas pessoas saindo do templo antes do fim da peleja. O careca quis matar todos, um por um e com as próprias mãos, mas optou por olhar o semblante de alguns na expectativa de encontrar respostas, e encontrou: a coisa estava preta. Entre os que saíam, haviam tipos e tipos. Alguns, estafados após uma semana correta e educada diante de patrões e clientes, não aguentaram a perspectiva iminente de um domingo sem a catarse que daria sentido e absolvição aos dias pregressos e também aos futuros. Quem os julga?

Outros saíram simplesmente porque não aguentavam mais a tortura da espera, não de 90 minutos, mas de alguns anos, talvez os melhores e mais vívidos anos, que só não foram melhores porque a bola, colecionando cenas feias um réveillon depois do outro, nunca entrou. Os olhos chicoteavam a alma e enlouqueciam a cuca. Eles saíam pela rampa e deitavam, desabavam, na parte de fora do gigante com refletores já acesos. Quando o dia está raiando, meu bem, é preciso ir embora.

Os vendedores de cerveja, de bandeira, já estavam posicionados. Os guardadores de carro já tinham se mandado. O lusco-fusco das 18h05 não deixava mais sombra no chão, nem sombra de dúvidas. Era o fim, um fim repetido com cheiro de pernil vindo da barraquinha fumacenta e experiente.

No entanto a certeza maior desse fim vadio vinha, ainda, do som. O tal do burburinho, dos gritos e cantos, dos "ús" e "ês". Não era mais detectável. Cada um berrava por si e sem cadência. A harmonia também já se mandara. No desespero todo mundo recorre à estupidez da individualidade.

Mas no futebol tem um negócio que qualquer ouvido decifra. É uma fração de segundo que dura tanto, tanto. É o silêncio mais absoluto que uma multidão pode fazer junta, o silêncio que nenhum padre ou general jamais vai conseguir extrair de sua turma. Trata-se do silêncio que precede o gol. Entre o chute e o balançar da rede. Pra não incomodar a gorduchinha nem atrapalhar o destino, eles sequer respiram. Tudo cala e tudo para, menos a bola, que parece decidir o que quer da vida.

Depois de negar um bom natal para esta gente por tantos anos seguidos, dessa vez ela entrou. No último minuto, mas entrou.

O silêncio que precede a explosão do gol foi sentido lá de fora. Pra depois ser soterrado pelo urro vital, a onda sonora que emaranhou o cabelo das meninas e arrepiou a careca dos rapazes. Pra depois ser confirmada por alguns corajosos com radinho de pilha: foi gol. Pra consagrar o vendedor de cerveja e encher o policial de um trabalho que ele vai cumprir com prazer.

Câmera alguma registrou o quanto correram e pularam aqueles do lado de fora.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Fim de semana com o gorducho

Enfiamos duas camas no chão do quarto, e nos postamos tal qual John e Yoko, eu e Chris, pra fazer uma maratona do Hitchcock. Acho que foram os canais por assinatura que cunharam o termo "maratona" pra se referir a uma sequência de filmes com alguma semelhança (mesmo diretor, mesmo ator, etc) ou uma sequência de episódios de uma mesma série. Sim, porque em verdade nada se assemelha menos a uma maratona do que se enfiar sob lençóis e assistir filmes. Mas, vá lá, na falta de termo melhor, fica esse mesmo.

Alugamos então quatro filmes do decantado mestre do suspense. Dois que já tínhamos visto e queríamos rever, e dois inéditos para nós dois. Os já vistos eram "Um corpo que cai" (1958) e "Festim diabóllico" (1948) e os inéditos eram "Cortina rasgada" (1966) e "Frenesi" (1972).

Na eterna discussão sobre quem é o verdadeiro autor de um filme, se é seu roteirista ou seu diretor, nos casos em que eles não são a mesma pessoa, obviamente, o gorducho Hitch é um caso à parte. Apesar de ser uma assinatura famosa ("Um filme de Alfred Hitchcock"), o bolota nunca escreveu uma linha de nenhum filme que dirigiu. Estou dando essa informação assim de cabeça, sem pesquisar, mas se não for totalmente verdade, sei que é quase totalmente verdade. Compreende? Seu negócio era filmar. Ele não precisava de grandes coisas pra fazer um grande filme. Claro que, depois de famoso, ele recebia roteiros bem escritos, pelos melhores profissionais, mas o que ele precisava era meramente de um gancho pra desfilar seu talento único em nos prender à cadeira. Ou à cama, em nosso caso particular.

Começamos com "Cortina rasgada", o penúltimo filme que ele dirigiu. Trata-se de um físico americano, que vai pra Berlim oriental em plena época da Cortina de Ferro (por isso o nome do filme, dããã), a linha imaginária que separava comunistas de capitalistas, pra roubar um segredo de um colega físico alemão. Ele tenta enganar os vermelhos, dizendo que rompeu com seu governo, mas na verdade não rompeu foi nada. A trama é bacana, mas seria um filmeco de nada em mãos pouco hábeis.

Logo depois vimos "Festim diabólico", um exercício de estilo em que o diretor faz praticamente teatro filmado. O filme quase não tem cortes, e quando os tem eles estão escondidos, mal dá pra notar. Isso porque, à epoca, cada rolo de filme durava apenas doze minutos, de modo que ficava inviável tecnicamente fazer um filme direto, sem cortes, coisa que hoje em dia é possível. Enfim, neste aqui dois amigos matam um colega de escola, escondem o corpo num baú na sala, e dão uma festa em que a comida fica em cima do referido móvel. Detalhe: ele chama para a festa os pais do morto, mais sua namorada. Eu disse que o mestre faz teatro filmado, mas em verdade há momentos de puro cinema, como quando a câmera se foca apenas no baú, enquanto a empregada começa a arrumar as louças e a pegar os livros que, sabemos, ela vai colocar dentro do baú.

Na manhã seguinte começamos assistindo "Um corpo que cai", considerado por muitos o melhor filme da prodigiosa carreira do rapaz. Revendo agora, percebo que Hitch fez quase um filme mudo. Há momentos em que ele chega a ficar, sei lá, 15 ou 20 minutos sem uma fala sequer. E, se pensarmos bem, não dá pra lembrar de muitos diálogos no filme, que tem mais de duas horas. Ainda assim, não dá pra desgrudar os olhos da tela. Coisa de gênio mesmo. Aqui James Stewart espiona a esposa de um amigo, e fica obcecado por ela, mesmo após sua morte. Ou será que ela não morreu?

Pra encerrar, assistimos "Frenesi", exemplar da fase final da carreira do cineasta. Dá pra perceber que ele já trabalha sem a censura que imperou em Hollywood durante quase todo sua carreira. Rolam uns peitinhos femininos, coisa que ele deve ter se segurado pra não mostrar durante toda sua vida, já que quase sempre ele trata de taras, voyeurismo, maníacos, etc. Isso não diminui o filme, mas também não acrescenta grandes coisas. Apenas, talvez, o torna mais natural, ou mais vulgar, a depender do ponto de vista. Aqui há um tema recorrente na carreira do cineasta: o homem inocente que é acusado de um crime que não cometeu, uma vez que, como eu disse antes, ele é inocente, porra! Um serial killer mata mulheres com uma gravata, e o coitado do protagonista estava no lugar errado na hora errada. Um filme menor do mestre, mas ainda assim muito acima da média dos filmes com temática parecida.

Depois desses quatro exemplares, o que mais me passa pela cabeça é: como é danado esse gordinho. O cara não erra uma! A imagem é a seguinte: ele tem o espectador na mão. É um conhecedor profundo da linguagem cinematográfica, e faz o que quer com seu público. Constrói a tensão sem precisar de efeitos especiais. Aliás, quando os usa, são de uma tosqueira terrível. São a única coisa que não envelheceu bem em seus filmes. Mas sua maestria é inimitável.  

A se considerar a extensa filmografia do cara, não chegou a ser uma maratona, no máximo uma corrida de 100 metros rasos. Trata-se de um homem com mais de 50 filmes no currículo. Há muitas outras maratonas pra serem feitas, já que deixamos de lado clássicos absolutos como "Psicose", "Os pássaros", "Disque M para matar", "Janela indiscreta", entre tantos outros. Mas garanto que foi um fim de semana na mais fina companhia. Na cama e na tela.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O auge urge

Uma ignorância que, vi depois, era proposital, filha preguiçosa do absoluto desinteresse no mínimo raciocínio, sapateou na cabeça segundos antes do mergulho. Algum receio estúpido de correr um risco impossível, um sinal inequívoco do quanto um cérebro urbano, ou pior, paulistano, consegue se apequenar diante do anódino. Fato é que não foi um pulo de peito aberto, tal qual o camarada Feu acabara de fazer, molhando infame as duas gringas e o rapazote que descansavam no pier como se a vida estivesse ganha, e estava. Foi com medo, o salto.

Ora, era um rio, um riacho, nada mais. Um canal. Era água. Tão natural quanto a vida quase nunca é, sem qualquer menção de segredo ou truque. Você cai na água e nela fica, pra lá, pra cá, e tira a sua chinfra. Ali estava meu primeiro riacho na vida adulta, o que em primeira instância não quer dizer nada, e em segunda também não. O Feu, ali no rio comigo, pouco antes dissera sobre mim, ou para mim, na verdade a respeito da minha idade, que era pra eu me ligar, você tá no auge, moleque, e eu fiquei pensando nesse tal de auge, que porra é essa de auge, enquanto boiava nas águas calmas. 

A Raquel, por exemplo. Nos convidou para um forró. Depois para uma praia deserta. Ela adorava sinceramente ambos os cenários, respectivamente um cativeiro e um atalho para o nada, onde fomos enfiados, qual o quê, praia mole, joaquina, o john bull e seu letreiro gigante nada significam pra Raquel e seu gosto alternativo. Temos, suponho presunçoso, idades parecidas, e eu não quero criar antagonismos entre nós, só sugerir que esse negócio de auge, de ponto alto, seja uma trapaça retórica, tão subjetivo, ou impreciso e mentiroso quanto uma página de horóscopo, e eu não quero comprar briga com quem acredita nisso, mas dar um golpe nessa coisa de cronologia, de vida temporal. 

Porque se estamos falando de um relógio, e os 28 anos são o tal do auge, e o tempo não dá tempo, e a gente se pretende seguir e envelhecer, então eu sinto pressa, urgência, estou sendo empurrado e não gosto, o Feu também sente e me disse sentir, e isso não é certo. Se é assim, então concluo que o auge urge, e não devia, pois assim se sabota no mesmo instante. O auge demanda paz, não pressa.

É uma colônia de pescadores, com ruas apertadas, paralelepípedos e gente andando neles, local de rendeiras e matutos, onde eu escolhi estar sem muito a esperar. Debaixo de um maldito e bendito ar condicionado companheiro no não-sono, através de alguns cliques no celular e um pouco de coragem e sensatez, pincelei um 2013 que, tacanho, neguei a mim mesmo em 2012. Recebemos visitas, das quais uma ficou e outra, ao menos, me abraçou, gesto que acompanha o perdão, sempre. A comovente bagunça que sou capaz de fazer em quartos que se propõem meus não se alterou. Sinal de adaptação, em contraponto ao riacho, a tudo que não era meu e ao sotaque que não sei imitar.

Não faltava muito para dar meia-noite quando ela apareceu com flores roubadas pra jogar no mar, Iemanjá e tal, e rosas vermelhas estampadas no vestido sem alças. Mergulhou mais de uma vez, inclusive, ao passo que o rapaz que aparecera junto, alucinado, não só mergulhou como voltou pra casa à nado, pelo canal. Eu, seco, curtia a lua, calculava coincidências possíveis e pensava, afinal, por quê não o auge, por quê não agora? "Feliz ano novo, meu irmão", disse o primeiro a falar comigo em 2013, apertando meu pulso com uma mão e me dando a batida de abacaxi com a outra. Ele virou o ano fazendo uma batida pra mim e isso é tão banal e legítimo quanto explodir um rojão. Dizem que os rojões afastam os maus espíritos. O meu estava aquietado com a idéia, metade banal metade bestial, de assumir todo esse otimismo aí, reveillón deve servir pra isso, afinal, abracemos alguma palavra de ordem que seja boa, e se a vida se apresenta boa, então que se torne maravilhosa e sem muitas conexões com o mundo real, aquele lá atrás, duro e faminto e que corta o barato de quem não relaxa. 

Mergulhos desastrados em mares revoltados houveram de pintar e fizeram rir e brincar. Mais tarde, noutra praia e estado, naquele mar que ainda é meu, foram vários os minutos sem uma onda sequer nem vestígio de pessoas. Água calma com chão de areia grossa, tão parecido com o riacho pouco familiar de dias antes. Mergulhos novos dão medo, ainda que pareçam mais do mesmo, triviais, e  mesmo que não dêem, causam alguma espécie de coisa qualquer, que é da hora, não a gíria, mas da hora que o relógio  não capta, da chance e da opção que surge de, se tiver presença de espírito, desligar e desfrutar daquilo que criou pra si. Estando onde se esforçou pra estar, porque quis estar, sem outros motivos. Estas coisas que não podem ser corriqueiras. Quando mergulhei, literalmente de cabeça, no colo dela, pra dormir, pro tempo passar, pra 2013 enfim começar sem fantasias, me peguei debochando de novo dessa coisa de auge, essa hipérbole, essa forçada de barra só pra se sentir legal - como se isso fosse pouco. Mas aí veio o cafuné no cabelo, preguiçoso e previsível, sintético portanto, e o deboche, com 2012 motivos para sumir, ficou pra trás, em algum lugar da BR que eu já não sei qual era mas que passei, trazendo na mala um ano e um motivo a mais pra seguir.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Acidente

Há alguns dias atrás,
Sofri um acidente
E morri.
Mas em compensação,
Foi o último acidente
Que sofri.