segunda-feira, 17 de junho de 2013

Vinagre Versus Gravata

Moro pela primeira vez no centro de São Paulo. É uma nova relação com este lugar que me tem no mundo quase que a contragosto, e, juro, me encho de boa vontade para gostar disso tudo.

Já no segundo mês, um confronto entre a população e o Estado brotou debaixo do meu apartamento, na frente da minha porta. Todos já disseram algo sobre isso. Até a Thaila Ayala, que eu mal sei quem é, mas é esposa do Paulo Vilhena, que não é policial nem manifestante, mas bate em mulheres e não está preso, mas isso é outro assunto.  Não quero ser repetitivo. Impressões pessoais.

Acompanhei com distância os dois confrontos iniciais (e dane-se se uso a palavra confronto, ou manifesto, ou banzé-de-gato, por favor, sem fazer juízo de valor em tudo que se digita). Participei do terceiro e vivi intensamente o quarto. Virão outros.

Chovia forte. Fui andando do trabalho à Paulista, ouvindo Sandra de Sá no fone, uma trilha sonora bizarra para a ocasião e a tensão ao redor. Demorei pra chegar na marcha que já avançava. O barulho, ao longe, era de um estádio. Apressei, logo vi bandeiras, faixas, buzinas, fogos, tudo que, junto da chuva e de milhares de pessoas espremidas e entusiasmadas, me colocaram num cenário familiar. Um estádio daqueles que agora, no Brasil, ficaram fora de moda e sem bandeira nem faixa nem gente espremida nem entusiasmada e cobertos para que eu não tome chuva.

Encontrei amigos. Vários. De tudo que era "rolê". Aquilo me dizia respeito, pensei. A tal da liderança, do tal do nome utópico Movimento Passe Livre, é composta por gente muito jovem e trabalhadora. Na faixa de trânsito não-interditada para a andança, membros do Movimento falavam educadamente com os motoristas de carro. "Desculpa, já vai melhorar, boa viagem, obrigado pela compreensão". Vi um ônibus sendo incendiado na Sé. Pessoas do MPL chegaram antes mesmo da polícia e apagaram o fogo sei lá como. Pacifistas contra o vândalo. A polícia não prendeu quem fez isso. Nem quem pixou muros em excesso. Ineficiente. O ônibus entrou na estatística de vandalismo. O vândalo não entrou na estatística de presos. Os apagadores de fogo não entraram na lista de pacifistas. Isso tá errado. Vá lá. Em frente.

Chegamos no terminal Dom Pedro, já sem a companhia da chuva, e eu comento: a polícia já deixou andarmos por mais de duas horas, sem repressão, dando um jeito no trânsito, palmas para eles. Pronto. Bomba. Tiro. Muita bomba. Me sinto um rato. Eu invado um cortiço fétido, inabitável, e, com garganta e olhos comprometidos, levemente desesperado, cuspo sem parar na sala de uma família qualquer. Que não me repreende, e sim me dá água. Me desculpo pela invasão. Outros também invadiram. Não somos intrusos.

Volto pra casa. Os conflitos maiores começam e eu acompanho ao largo, vendo de longe, caminhando noutra direção. O povo faz o caminho de volta igual ao de ida, e, aí sim, o faz quebrando coisas por nada, sem contexto. Até chegarem na Paulista. Quebram os vidros metrô. Vitória da Polícia, vitória do Estado interessado na má notícia. A depredação só aconteceu depois das bombas, mas, sobretudo, só aconteceu depois que o povo se dispersou, e a liderança do Movimento já não estava na frente. Isso é relevante.

Um amigo de 26 anos, 20 deles ao meu lado, voltando pra casa sozinho como eu, teve pior sorte. Apanhou de 5 policiais. A muleta virou sua parceira. Outro amigo foi preso quando já parecia tudo encerrado. Foi um dos que perdeu a cabeça. E teve o nariz quebrado mesmo sem reagir à prisão. Aquilo era uma derrota ao meu coração, o sofrimento coletivo e meu, agora tinha símbolos com nome e sobrenome de amigos. Deu errado, o protesto, para alegria de Arnaldo Jabor, Datena, Veja, Folha, Globo, todos mais (Jabor disse em rede nacional que em SP "a causa dessa gente é não ter causa", ora, um paulistano tem 50 causas relevantes para protestar, o transporte público é só uma delas).

A vida seguiu, menos para meu amigo que continuou preso.

Dois dias depois, o novo protesto. Tudo mudou. Mal começa a noite e os relatos assustam. Pessoas são revistadas ao sair do metrô, abordadas nas ruas perto da Paulista, o vinagre é detido, a esquizofrenia corre solta. Cerca de 60 são presas ainda antes de começar a andança, num gesto intimidador aos demais. São presas como se pesca tainha: numa baciada só, numa jogada de rede, aleatória. Entre as pessoas detidas, boa parte da liderança do MPL. Sem liderança, o prato fica cheio para os tais dos vândalos. Tensão sobe. Pintam relatos de jornalistas agredidos por simplesmente trabalhar no registro de imagens. Sim, esqueça aquela paciência de terça.

Pouco se anda. Na hora de subir a Consolação, falta liderança dos dois lados. Uma está presa ou engolida pelo espontâneo e numeroso público. A outra liderança parte pra bala e pra bomba. Perde o controle e a noção. Empurram 15 mil pessoas para outras ruas, no meio de carros, e retomam as bombas quando estes chegam à Rua Augusta para o mesmo objetivo: a Paulista. A Paulista que a PM interditou para evitar que a manifestação lá chegasse.

Caos no transito que, um dia antes, por causa da chuva, e não de protestos, bateu recorde anual de lentidão.

Dois jornalistas tomaram tiros nos olhos. Veja bem: nos olhos. Simbolismo claro para fotógrafos. Uma delas, da Folha de S. Paulo, cujo editorial do jornal do mesmo dia dizia "retomem a Paulista", encorajando a polícia num eco do que o Governador havia dito. Sobram vídeos de abusos e relatos selvagens, mas esta frase aqui é mais forte, ó: dois fotógrafos trabalhando tomaram tiros nos olhos. Um cegou. Não faria sentido nem se fossem bandidos do outro lado. Não eram, eram jornalistas, e mesmo que fossem 50% de bandidos entre os milhares do protesto, 90%, ainda assim a visão do jornalista atingido não podia pagar a conta. E pagou. Por culpa do patrão dele, indiretamente, inclusive.

A polícia que conclui apenas 2,5% dos casos de crime na cidade. Absolutamente fora da realidade e desproporcional ao fato, ela dá tiro em homens e mulheres, sem distinção, pedindo paz ou insultando, não importa. Sobra pra todo mundo. Fica constrangedoramente claro o excesso.

Com exceção de Veja, Globo e algumas outras trincheiras surdas e passionais, toda a imprensa brasileira destaca o destempero policial. Até o Datena reconhece e o Jabor segura a arrogância para calar-se. Vitória do manifesto, vitória do povo, 1x1. Manifestações no RJ também acontecem. O cenário é quase igual. As redes sociais vão aumentando a lista de provas do que ocorreu, e eu, bem, eu acho bonito aquilo tudo pelo ponto de vista dos manifestantes ganhando adeptos num protesto que deveria ser de adesão, ou ao menos respeito, por parte de todo o resto da população.

Eu vou recuar um pouco.

Estive no Pinheirinho ano passado, uma área de barracos desapropriada na base do cacetete por ser, o terreno, de propriedade de um lobista que nada fez, ainda, com a posse desabitada. Foi um massacre de estratégia burra e covarde que destruiu uma comunidade constituída e pulverizou o patrimônio de muita gente miserável. Eu quis saber do Comandante da PM que conduziu a operação o motivo de tanta dureza.

Por 50 minutos ele me atendeu, e foi muito educado e claro, e simpático também.
Lá, me disse repetidas vezes: "a PM vive do ´cumpra-se´. Quando está no papel, no mandado, a palavra ´cumpra-se´, ela cumpre. A PM não discute, ela cumpre". É sórdido, é pouco humano cumprir sem refletir, o caso era de reflexão humanista em um país onde muitos não tem outra opção de vida que não seja trabalhar muito pra ganhar apenas o suficiente pra viver numa favela em um lugar impróprio ou ilegal, mas é uma lógica, vá lá.

Policiais são pessoas. Acham coisas certas e erradas igual qualquer um, e sofrem pressões externas, e pressionam a si mesmos. E cumprem ordens. No caso, do Governador. Que por sua vez ordena coisas para satisfazer uma parte da população que é refletida nos jornais conservadores que lhe poupam de investigações maiores, como poupam Lula, Dilma, todos. Sociedade classista quer, mídia apóia e aconchega, Governador acha uma boa, e põe nas ruas uma porção de homens despreparados que pouco sabem pelo que estão cumprindo. É conveniente para a pirâmide de poder. O dinheiro pressiona a cidade junto, afasta periferia e centro, e quando 10 mil finalmente explodem, e viram 20 mil, parece uma coisa do outro mundo. Não é. Manifestos de 100 mil nas ruas, estes sim, são dignos de registro. os de 20 mil deveriam ser normais e familiares à polícia e à população, pena que não são.

O "cumpra-se" vive nos estádios também, onde a PM oprime todos só porque tem 50 bandidos no meio de uma torcida organizada, mas que, misteriosamente, não são presos nunca, talvez porque exista um teatro aí, e a policia não queira comprar essa briga, porque existem muitas outras coisas por trás, e aqui eu faço uma reflexão importante: quem realmente manda na cidade e cala a polícia quando se mexe chama-se PCC. Quando estes comprarem alguma briga, aí sim estaremos perdidos. Jogar bomba em Movimento Passe Livre, desculpe, é café pequeno demais, é fácil. As grandes brigas diárias e violentíssimas nesta cidade não são combatidas da mesma forma.

Vale dizer que um mês atrás choveram denúncias na Virada Cultural, evento pessimamente organizado pelo Prefeito do PT Fernando Haddad, um sujeito pelo qual nutro profundo descrédito. As denúncias eram de boicote da PM, que assim, deixando arrastões e roubos e violências acontecerem sem qualquer reação, protestavam contra a vida de merda que possuem, com muita pressão e pouco salário. Este era o grave protesto deles: deixaram o evento virar uma zona de assalto livre.

Não sei, estou palpitando, não li sobre isso em lugar algum, mas meu travesseiro me fez ligar um ponto ao outro. Insisto em ver na polícia uma porção de seres humanos, em um momento de crise com seus chefes. E você imagina o conflito de uma corporação que vive de "cumpra-se", quando o homem que os manda cumprir algo é visto como inimigo. Contudo, quem toma bala no olho ou no corpo quando pede algo sem violência jamais vai imaginar este conflito. É por isso que confrontos costumam não ter fim. O revide é um contágio. 

Voltando para o atual: meu amigo foi solto, e o outro começa a andar novamente. Começa um ensaio de ciclo vicioso de povo insuflado contra polícia desnorteada. Um povo que vai acabar depredando de novo e perdendo a razão. Uma polícia que vai dar uma maneirada nas bombas para reconquistar a opinião pública e ganhar a razão. Depois, de novo, a tal da razão vai se inverter. E a briga vai ficar extensa e repetitiva e sem o sentido saudável que até agora teve (esqueça isso de prejuízos imensos ao patrimônio público, é relativamente pouco, quase nada, em comparação com qualquer protesto realmente maciço pelo mundo).

Os otimistas acham que isso vai acabar em movimento revolucionário por uma cidade e um país melhores. Eu, que dormi mal pensando em meu amigo preso, acho que isso vai acabar em morte e muitas outras mais prisões de gente de bem. Esta cidade sofre da Síndrome de Estocolmo, e de fato é a única coisa de Estocolmo que existe nela. Andei pela cidade. Senti a cidade. Me parece um momento raro, desses difíceis de se esquecer e que podem mudar uma cidade por alguns anos. A turma do vinagre de um lado, o terno e gravata que dá ordens pra turma de escudo e espingarda do outro lado. A cidade e suas pessoas no meio. Nem todas querendo mudanças e igualdade, algumas satisfeitas com as loucuras que a metrópole sustenta. Mas todas terão que entender que são dias diferentes, e isso pode significar um amigo preso, um amigo tomando tiro no olho em pleno trabalho, ou, na melhor das hipóteses, um susto aqui, uma meia-hora a mais no trânsito acolá.

Terminei a quinta-feira jogando sinuca num subterrâneo da Santa Cecília. Não falamos de bombas, jogamos 6 partidas e eu ganhei 4. Não pensamos em vingança, pensava em meu amigo preso a cada batida na bola branca. "A cidade está tensa até aqui", me falou o perdedor da sinuca. "É porque você tá apanhando de mim", respondi para não ter que concordar.

Incrivelmente, ao ver um movimento em favor dos Severinos da periferia, acho que estou começando a gostar do centro desta cidade. Ao menos eu vi gente viva, errante ou não, com loucos e baderneiros por perto, como será sempre na vida.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

As galinhas estão felizes



As galinhas estão felizes. Antes do sol raiar já estavam de pata, ciscando. Acordaram com fome, rasparam o tacho de ontem, e depois começaram a procurar qualquer porcaria que tenha ficado no chão. As galinhas ficam felizes sempre que podem comer e não tem ninguém querendo lhes cortar o pescoço.

Os pintos acordaram tarde, e as galinhas foram lá, botar-lhes embaixo de suas asas. As galinhas adoram cuidar dos pintos, isso as deixa radiantes. No terreiro, nenhuma sombra de ameaça, apenas o sol luzindo, deixando a terra quente. Elas adoram poder correr, voar o tanto que lhes é cabido, e retornar ao poleiro.

No começo da manhã para o mundo dos homens, hora da quirera, servida em grandes doses, galinhares. Elas se esbaldam, bicam umas às outras, felizes como podem ser. Enchem o pequeno estômago de milho, e vão se empoleirar. Os pintos ciscam mais um pouquinho.

À tarde voltam ao terreiro, prescrutam, curiosas, todo aquele  terreno, que é o mesmo que elas percorrem todo dia. Passam pelos mesmos lugares de sempre, mordiscam pequenas larvas, insetos variados, coloridos. Galinhas adoram cores. Quase sorriem com seus bicos pequenos e firmes.

Já anoitecendo, fim de mais um dia, as galinhas vão dormir com as galinhas. Se empoleiram, em poleiros sem lugar marcado. Vão dormir sem saber que amanhã será igualzinho hoje. E quando acordarem serão igualmente felizes.

Seus ovos serão mais gostosos. As galinhas estão felizes.