quinta-feira, 11 de julho de 2013

Refletindo as cartolizações



Às vezes a paz aparece. É como uma entidade. Ela simplesmente está ali. Não depende exatamente da gente. Depende de uma quantidade grande de fatores, entre os quais o saber-se quem é. Sim, saber-se quem é. Eu sou esse cara. Saber-se defeitos, qualidades, erros infantis, acertos perfeitos. Ter um amor, e saber, por um instante, que ele é forte, também ajuda.

Disse o Cartola, em canção que fez com Elton Medeiros:
“Um vazio se faz em meu peito
E de fato eu sinto em meu peito um vazio”

Pode ser que pensem que Cartola estava sendo redundante. Mas Cartola estava só sendo enfático. Quando você ama alguém, e está momentaneamente sem este amor, você sente esse tal vazio, que faz as coisas empalidecerem por um tempo. Se o tempo for suficiente, e sua mente for poderosa o bastante pra aguentar, pode ser que o tal tempo passe, e você já não sinta o vazio, consiga preencher o vazio com outras coisas, outros objetos, outras carícias, até. Sorte a sua.

Todavia, se o amor ainda está, e você consegue sentir o seu fluxo, indo e vindo em suas veias, e tudo parece bem, e o momento parece bom, te digo, nada pode ser melhor. Basta se deixar levar, mesmo que seja efêmero, mesmo que a dureza, e não o bálsamo, seja a regra. Viver o amor, até a última gota, até que não haja mais o que sorver. E quem sabe, de tanto sorver, talvez você acabe morrendo, velhinho, e ainda amando, e ainda vermelho de paixão, curioso, atento, ansioso, perplexo por fazer durar o que parecia tão finito.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Vinagre Versus Gravata

Moro pela primeira vez no centro de São Paulo. É uma nova relação com este lugar que me tem no mundo quase que a contragosto, e, juro, me encho de boa vontade para gostar disso tudo.

Já no segundo mês, um confronto entre a população e o Estado brotou debaixo do meu apartamento, na frente da minha porta. Todos já disseram algo sobre isso. Até a Thaila Ayala, que eu mal sei quem é, mas é esposa do Paulo Vilhena, que não é policial nem manifestante, mas bate em mulheres e não está preso, mas isso é outro assunto.  Não quero ser repetitivo. Impressões pessoais.

Acompanhei com distância os dois confrontos iniciais (e dane-se se uso a palavra confronto, ou manifesto, ou banzé-de-gato, por favor, sem fazer juízo de valor em tudo que se digita). Participei do terceiro e vivi intensamente o quarto. Virão outros.

Chovia forte. Fui andando do trabalho à Paulista, ouvindo Sandra de Sá no fone, uma trilha sonora bizarra para a ocasião e a tensão ao redor. Demorei pra chegar na marcha que já avançava. O barulho, ao longe, era de um estádio. Apressei, logo vi bandeiras, faixas, buzinas, fogos, tudo que, junto da chuva e de milhares de pessoas espremidas e entusiasmadas, me colocaram num cenário familiar. Um estádio daqueles que agora, no Brasil, ficaram fora de moda e sem bandeira nem faixa nem gente espremida nem entusiasmada e cobertos para que eu não tome chuva.

Encontrei amigos. Vários. De tudo que era "rolê". Aquilo me dizia respeito, pensei. A tal da liderança, do tal do nome utópico Movimento Passe Livre, é composta por gente muito jovem e trabalhadora. Na faixa de trânsito não-interditada para a andança, membros do Movimento falavam educadamente com os motoristas de carro. "Desculpa, já vai melhorar, boa viagem, obrigado pela compreensão". Vi um ônibus sendo incendiado na Sé. Pessoas do MPL chegaram antes mesmo da polícia e apagaram o fogo sei lá como. Pacifistas contra o vândalo. A polícia não prendeu quem fez isso. Nem quem pixou muros em excesso. Ineficiente. O ônibus entrou na estatística de vandalismo. O vândalo não entrou na estatística de presos. Os apagadores de fogo não entraram na lista de pacifistas. Isso tá errado. Vá lá. Em frente.

Chegamos no terminal Dom Pedro, já sem a companhia da chuva, e eu comento: a polícia já deixou andarmos por mais de duas horas, sem repressão, dando um jeito no trânsito, palmas para eles. Pronto. Bomba. Tiro. Muita bomba. Me sinto um rato. Eu invado um cortiço fétido, inabitável, e, com garganta e olhos comprometidos, levemente desesperado, cuspo sem parar na sala de uma família qualquer. Que não me repreende, e sim me dá água. Me desculpo pela invasão. Outros também invadiram. Não somos intrusos.

Volto pra casa. Os conflitos maiores começam e eu acompanho ao largo, vendo de longe, caminhando noutra direção. O povo faz o caminho de volta igual ao de ida, e, aí sim, o faz quebrando coisas por nada, sem contexto. Até chegarem na Paulista. Quebram os vidros metrô. Vitória da Polícia, vitória do Estado interessado na má notícia. A depredação só aconteceu depois das bombas, mas, sobretudo, só aconteceu depois que o povo se dispersou, e a liderança do Movimento já não estava na frente. Isso é relevante.

Um amigo de 26 anos, 20 deles ao meu lado, voltando pra casa sozinho como eu, teve pior sorte. Apanhou de 5 policiais. A muleta virou sua parceira. Outro amigo foi preso quando já parecia tudo encerrado. Foi um dos que perdeu a cabeça. E teve o nariz quebrado mesmo sem reagir à prisão. Aquilo era uma derrota ao meu coração, o sofrimento coletivo e meu, agora tinha símbolos com nome e sobrenome de amigos. Deu errado, o protesto, para alegria de Arnaldo Jabor, Datena, Veja, Folha, Globo, todos mais (Jabor disse em rede nacional que em SP "a causa dessa gente é não ter causa", ora, um paulistano tem 50 causas relevantes para protestar, o transporte público é só uma delas).

A vida seguiu, menos para meu amigo que continuou preso.

Dois dias depois, o novo protesto. Tudo mudou. Mal começa a noite e os relatos assustam. Pessoas são revistadas ao sair do metrô, abordadas nas ruas perto da Paulista, o vinagre é detido, a esquizofrenia corre solta. Cerca de 60 são presas ainda antes de começar a andança, num gesto intimidador aos demais. São presas como se pesca tainha: numa baciada só, numa jogada de rede, aleatória. Entre as pessoas detidas, boa parte da liderança do MPL. Sem liderança, o prato fica cheio para os tais dos vândalos. Tensão sobe. Pintam relatos de jornalistas agredidos por simplesmente trabalhar no registro de imagens. Sim, esqueça aquela paciência de terça.

Pouco se anda. Na hora de subir a Consolação, falta liderança dos dois lados. Uma está presa ou engolida pelo espontâneo e numeroso público. A outra liderança parte pra bala e pra bomba. Perde o controle e a noção. Empurram 15 mil pessoas para outras ruas, no meio de carros, e retomam as bombas quando estes chegam à Rua Augusta para o mesmo objetivo: a Paulista. A Paulista que a PM interditou para evitar que a manifestação lá chegasse.

Caos no transito que, um dia antes, por causa da chuva, e não de protestos, bateu recorde anual de lentidão.

Dois jornalistas tomaram tiros nos olhos. Veja bem: nos olhos. Simbolismo claro para fotógrafos. Uma delas, da Folha de S. Paulo, cujo editorial do jornal do mesmo dia dizia "retomem a Paulista", encorajando a polícia num eco do que o Governador havia dito. Sobram vídeos de abusos e relatos selvagens, mas esta frase aqui é mais forte, ó: dois fotógrafos trabalhando tomaram tiros nos olhos. Um cegou. Não faria sentido nem se fossem bandidos do outro lado. Não eram, eram jornalistas, e mesmo que fossem 50% de bandidos entre os milhares do protesto, 90%, ainda assim a visão do jornalista atingido não podia pagar a conta. E pagou. Por culpa do patrão dele, indiretamente, inclusive.

A polícia que conclui apenas 2,5% dos casos de crime na cidade. Absolutamente fora da realidade e desproporcional ao fato, ela dá tiro em homens e mulheres, sem distinção, pedindo paz ou insultando, não importa. Sobra pra todo mundo. Fica constrangedoramente claro o excesso.

Com exceção de Veja, Globo e algumas outras trincheiras surdas e passionais, toda a imprensa brasileira destaca o destempero policial. Até o Datena reconhece e o Jabor segura a arrogância para calar-se. Vitória do manifesto, vitória do povo, 1x1. Manifestações no RJ também acontecem. O cenário é quase igual. As redes sociais vão aumentando a lista de provas do que ocorreu, e eu, bem, eu acho bonito aquilo tudo pelo ponto de vista dos manifestantes ganhando adeptos num protesto que deveria ser de adesão, ou ao menos respeito, por parte de todo o resto da população.

Eu vou recuar um pouco.

Estive no Pinheirinho ano passado, uma área de barracos desapropriada na base do cacetete por ser, o terreno, de propriedade de um lobista que nada fez, ainda, com a posse desabitada. Foi um massacre de estratégia burra e covarde que destruiu uma comunidade constituída e pulverizou o patrimônio de muita gente miserável. Eu quis saber do Comandante da PM que conduziu a operação o motivo de tanta dureza.

Por 50 minutos ele me atendeu, e foi muito educado e claro, e simpático também.
Lá, me disse repetidas vezes: "a PM vive do ´cumpra-se´. Quando está no papel, no mandado, a palavra ´cumpra-se´, ela cumpre. A PM não discute, ela cumpre". É sórdido, é pouco humano cumprir sem refletir, o caso era de reflexão humanista em um país onde muitos não tem outra opção de vida que não seja trabalhar muito pra ganhar apenas o suficiente pra viver numa favela em um lugar impróprio ou ilegal, mas é uma lógica, vá lá.

Policiais são pessoas. Acham coisas certas e erradas igual qualquer um, e sofrem pressões externas, e pressionam a si mesmos. E cumprem ordens. No caso, do Governador. Que por sua vez ordena coisas para satisfazer uma parte da população que é refletida nos jornais conservadores que lhe poupam de investigações maiores, como poupam Lula, Dilma, todos. Sociedade classista quer, mídia apóia e aconchega, Governador acha uma boa, e põe nas ruas uma porção de homens despreparados que pouco sabem pelo que estão cumprindo. É conveniente para a pirâmide de poder. O dinheiro pressiona a cidade junto, afasta periferia e centro, e quando 10 mil finalmente explodem, e viram 20 mil, parece uma coisa do outro mundo. Não é. Manifestos de 100 mil nas ruas, estes sim, são dignos de registro. os de 20 mil deveriam ser normais e familiares à polícia e à população, pena que não são.

O "cumpra-se" vive nos estádios também, onde a PM oprime todos só porque tem 50 bandidos no meio de uma torcida organizada, mas que, misteriosamente, não são presos nunca, talvez porque exista um teatro aí, e a policia não queira comprar essa briga, porque existem muitas outras coisas por trás, e aqui eu faço uma reflexão importante: quem realmente manda na cidade e cala a polícia quando se mexe chama-se PCC. Quando estes comprarem alguma briga, aí sim estaremos perdidos. Jogar bomba em Movimento Passe Livre, desculpe, é café pequeno demais, é fácil. As grandes brigas diárias e violentíssimas nesta cidade não são combatidas da mesma forma.

Vale dizer que um mês atrás choveram denúncias na Virada Cultural, evento pessimamente organizado pelo Prefeito do PT Fernando Haddad, um sujeito pelo qual nutro profundo descrédito. As denúncias eram de boicote da PM, que assim, deixando arrastões e roubos e violências acontecerem sem qualquer reação, protestavam contra a vida de merda que possuem, com muita pressão e pouco salário. Este era o grave protesto deles: deixaram o evento virar uma zona de assalto livre.

Não sei, estou palpitando, não li sobre isso em lugar algum, mas meu travesseiro me fez ligar um ponto ao outro. Insisto em ver na polícia uma porção de seres humanos, em um momento de crise com seus chefes. E você imagina o conflito de uma corporação que vive de "cumpra-se", quando o homem que os manda cumprir algo é visto como inimigo. Contudo, quem toma bala no olho ou no corpo quando pede algo sem violência jamais vai imaginar este conflito. É por isso que confrontos costumam não ter fim. O revide é um contágio. 

Voltando para o atual: meu amigo foi solto, e o outro começa a andar novamente. Começa um ensaio de ciclo vicioso de povo insuflado contra polícia desnorteada. Um povo que vai acabar depredando de novo e perdendo a razão. Uma polícia que vai dar uma maneirada nas bombas para reconquistar a opinião pública e ganhar a razão. Depois, de novo, a tal da razão vai se inverter. E a briga vai ficar extensa e repetitiva e sem o sentido saudável que até agora teve (esqueça isso de prejuízos imensos ao patrimônio público, é relativamente pouco, quase nada, em comparação com qualquer protesto realmente maciço pelo mundo).

Os otimistas acham que isso vai acabar em movimento revolucionário por uma cidade e um país melhores. Eu, que dormi mal pensando em meu amigo preso, acho que isso vai acabar em morte e muitas outras mais prisões de gente de bem. Esta cidade sofre da Síndrome de Estocolmo, e de fato é a única coisa de Estocolmo que existe nela. Andei pela cidade. Senti a cidade. Me parece um momento raro, desses difíceis de se esquecer e que podem mudar uma cidade por alguns anos. A turma do vinagre de um lado, o terno e gravata que dá ordens pra turma de escudo e espingarda do outro lado. A cidade e suas pessoas no meio. Nem todas querendo mudanças e igualdade, algumas satisfeitas com as loucuras que a metrópole sustenta. Mas todas terão que entender que são dias diferentes, e isso pode significar um amigo preso, um amigo tomando tiro no olho em pleno trabalho, ou, na melhor das hipóteses, um susto aqui, uma meia-hora a mais no trânsito acolá.

Terminei a quinta-feira jogando sinuca num subterrâneo da Santa Cecília. Não falamos de bombas, jogamos 6 partidas e eu ganhei 4. Não pensamos em vingança, pensava em meu amigo preso a cada batida na bola branca. "A cidade está tensa até aqui", me falou o perdedor da sinuca. "É porque você tá apanhando de mim", respondi para não ter que concordar.

Incrivelmente, ao ver um movimento em favor dos Severinos da periferia, acho que estou começando a gostar do centro desta cidade. Ao menos eu vi gente viva, errante ou não, com loucos e baderneiros por perto, como será sempre na vida.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

As galinhas estão felizes



As galinhas estão felizes. Antes do sol raiar já estavam de pata, ciscando. Acordaram com fome, rasparam o tacho de ontem, e depois começaram a procurar qualquer porcaria que tenha ficado no chão. As galinhas ficam felizes sempre que podem comer e não tem ninguém querendo lhes cortar o pescoço.

Os pintos acordaram tarde, e as galinhas foram lá, botar-lhes embaixo de suas asas. As galinhas adoram cuidar dos pintos, isso as deixa radiantes. No terreiro, nenhuma sombra de ameaça, apenas o sol luzindo, deixando a terra quente. Elas adoram poder correr, voar o tanto que lhes é cabido, e retornar ao poleiro.

No começo da manhã para o mundo dos homens, hora da quirera, servida em grandes doses, galinhares. Elas se esbaldam, bicam umas às outras, felizes como podem ser. Enchem o pequeno estômago de milho, e vão se empoleirar. Os pintos ciscam mais um pouquinho.

À tarde voltam ao terreiro, prescrutam, curiosas, todo aquele  terreno, que é o mesmo que elas percorrem todo dia. Passam pelos mesmos lugares de sempre, mordiscam pequenas larvas, insetos variados, coloridos. Galinhas adoram cores. Quase sorriem com seus bicos pequenos e firmes.

Já anoitecendo, fim de mais um dia, as galinhas vão dormir com as galinhas. Se empoleiram, em poleiros sem lugar marcado. Vão dormir sem saber que amanhã será igualzinho hoje. E quando acordarem serão igualmente felizes.

Seus ovos serão mais gostosos. As galinhas estão felizes.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Mijada filosófica

Não sei porque cacetes de agulha, outro dia entrando no banheiro do banco onde trabalho, estava cantarolando na cabeça o "Rap do 175" do Gabriel, O Pensador. Eu sempre cantarolo alguma coisa na cabeça, às vezes coisas que não tem nada a ver com porra nenhuma, noutras vezes porque ouvi alguma palavra que lembrou uma música, enfim. Nesse dia, não consegui pensar em nada que me fizesse sequer lembrar do "Penseiro", como dizia meu pai. Me vinha o pedaço que dizia "são dois mendigos se matando pelos restos mortais, de um cachorro qualquer que foi atropelado, e vai virar rango, e se der, talvez seja assado".

Tá, não é nada genial. Mas comecei a pensar no Gabriel. Ele tinha 19 anos quando lançou seu primeiro LP. Sim, ainda era LP. Era um petardo. Letras raivosas, gigantescas, feitas por um menino burguês que gostava de se identificar com os mais pobres. Ele tinha o que dizer, não dava pra negar, mesmo que não se gostasse das canções que fazia. Mas meu pensamento foi mais por um caminho do tipo...o que se deu com Gabriel, O Pensador? Onde foi parar todo aquele talento, aquela urgência? E comecei a pensar na juventude. Não na juventude enquanto entidade, tipo a juventude da minha geração, ou a juventude na época da ditadura. Mas na juventude enquanto conceito.

Não tenho como não pensar no que o Bill escreveu há pouco aqui no Monolito, no post "O auge urge". Me refiro à passagem em que o Feu disse a ele que ele estava no auge, para aproveitá-lo. Bill refuta um pouco a idéia de auge no texto, mas acho que há um fundo de verdade nela. E inclusive acho que o próprio Bill, com seus 28 bem vividos, já passou do auge a que me refiro. Nada se compara aos vinte anos, ou ao período que vai três anos antes e três anos depois disso, com algumas exceções. Não quero ser mal compreendido. Entendo que depois disso podemos ser úteis, criativos, felizes, bonitos, profundos, poéticos, brilhantes, e tudo o mais de adjetivos que se possa pensar. Sou do tipo que acha que nunca, nunca mesmo, é tarde pra coisa nenhuma na vida. Ela é sempre pródiga em nos dar novas chances, novos horizontes, pra começar tudo de novo, igual ou diferente. Tenho uma profunda fé na vida, no que podemos fazer dela, muito mais do que tenho em Deus ou coisa assim.

Dito tudo isso, respiremos um pouco...

Volto a repetir, depois do suspiro: nada se compara aos vinte anos. A gente pode tudo. Podemos morrer no caminho, acontece com quem está numa danceteria, com quem está na estrada, com quem está na faculdade, onde for. Mas, se tivermos sorte, seremos intensos, de uma forma que depois será apenas lembrança. Pecaremos com fervor, como nunca mais. Seremos cruéis, falhos, egoístas. E depois lembraremos de tudo com um sorriso no rosto. Olho pros meus amigos, os que estavam comigo nessa época, e que por sorte ainda estão em minhas vidas, e penso: "Que grande privilégio! Estive com vocês no auge de nossas vidas. À partir de agora tudo o que vier é lucro." Porque só ali estávamos dispostos a morrer para sermos felizes. Hoje reina a cautela, o justo, o certo, a calmaria. Não porque a vida tenha deixado de ter graça, mas porque aquilo que fazíamos só era possível ali, naquele momento mágico e especial.

Me veio à cabeça também, naquele banheiro do banco, nos breves momentos de um mijo, o filme "Splendor in the grass". No Brasil ele saiu como "Clamor do sexo", talvez pra vender ingressos, mas seu nome original quer dizer "Esplendor na relva", ou algo assim. O filme é de 1961. Tinha Warren Beatty e Natalie Wood nos seus vinte e poucos. Ambos bonitos de dar medo, e devo dizer viadisticamente, com Beatty mais bonito do que Wood. O filme é sobre um namoro meio impossível entre os dois, por conta das famílias e tal. Warren Beatty exala virilidade e vontade de comer alguém, qualquer alguém. Wood é a mocinha pacata que não quer dar, porque a mãe está sempre em sua cabeça. Ambos, por mais que se amem, não ficam juntos, porque as famílias perturbam tanto suas mentes que a personagem de Wood vai parar até num sanatório. Ambos se encontram, já com as vidas encaminhadas, um casado, a outra de casamento marcado. Nada mais é possível, mas alguma chama lhes resta no olhar. A personagem de Wood diz parte de um poema, que dá nome ao filme:

"Embora nada possa nos devolver os momentos de esplendor na relva e glória nas flores, não sofreremos, ao contrário, aprenderemos com o que ficou pra trás"

É algo assim. É bonito. E triste também.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Pequeno Romek


Interessante como ler a biografia de alguém nos faz ficar próximos do biografado. É batata: você lê a biografia da pessoa, e em seguida fica sedento pra se aprofundar melhor no trabalho, se for um artista, ou no mínimo fica se sentindo íntimo, e quando o dito cujo aparece na TV ou coisa assim, você olha com um carinho estranho: “E aí, como você tá, rapaz? Estava com saudades”, parecemos dizer.

Terminei há pouco tempo a biografia do cineasta Roman Polanski, livro que me foi presenteado por meu irmão. Romek era o apelido dele (do Polanski, não do meu irmão, que fique claro) na Polônia, e pelo título desse texto já dá pra notar que eu estou íntimo do diretor.

 Poucas vidas se prestam mais a uma biografia do que a desse cara. Judeu nascido na França em 1933, mas criado na Polônia, já dá pra imaginar no que deu. Hitler chegou, levou pai e mãe (esta acabou morrendo nos campos de concentração, grávida de oito meses), e Polanski passou a infância fugindo, depois que seu pai conseguiu tirá-lo do gueto. Depois da guerra fez faculdade de cinema, dirigiu alguns curtas, e seu primeiro longa, “Faca na água” (1962) já foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Depois de alguns filmes e o estrondoso sucesso de “O bebê de Rosemary” (1968), uma tragédia: sua esposa Sharon Tate, grávida de nove meses, foi assassinada na casa dos dois, juntamente com mais alguns amigos, por membros da Família Manson, uma seita se maníacos chefiada por Charles Manson. Pouco menos de dez anos depois, Polanski foi condenado por “relação sexual ilícita com uma menor de 13 anos”. O diretor fugiu dos Estados Unidos antes que pudesse ser preso, e desde então é considerado um fugitivo da justiça dos EUA. Ele vive na França desde então, e recentemente acabou sendo preso na Suíça, quando foi receber um prêmio, sob a alegação de que havia um mandado internacional de prisão contra ele. Foi solto alguns meses depois.

Mas fato é que, no meio de tudo isso, Polanski dirigiu filmes. Alguns geniais, outros nem tanto. Por conta da vida atribulada, dirigiu até o momento apenas 19 longas, se não contarmos os que ainda estão em fase de produção ou pós-produção. Me propus a ver todos que pudesse achar, com a ajuda da Vídeo Vip, a minha locadora de velharias. Pra minha sorte, e surpresa, encontrei 18 dos filmes, ficando de fora apenas “Piratas”, que Roman dirigiu em 1986, e que foi um fracasso tremendo.

Assisti aos filmes entre os dias 12/03/2013 e 04/04/2013. Classifiquei-os por ordem de preferência, e divulgo a lista abaixo, do pior para o melhor, com pequenos comentários sobre cada um deles. Ao final de cada comentário, o “fator peitinho”, uma das obsessões de Romek.

Segue a lista:

18º - A Dança dos Vampiros (1967) – Romek, que bela merda, hein? Apesar da direção de arte competente, não dá pra saber se é terror, comédia, romance, suspense ou drama. Falta história ao filme. Parece que você chamou os atores, queria fazer um filme sobre vampiros, mas não tinha um enredo. Aí filmou isso aqui mesmo. Peitinho da Sharon Tate.

17º - O Último Portal (1999) – Pôxa, Romek, não é que seja terrível, é um bom filme de suspense. Mas poderia ter sido dirigido por qualquer um. Não parece um filme seu, e apesar de dividir a temática com “O bebê de Rosemary”, não chega nem perto do seu clássico. Peitinho da dublê de Lena Olin.

16º - Oliver Twist (2005) – Tá, eu entendo, você queria fazer um filme que seus filhos pudessem ver. Ok. Mas não é sua praia, concorda? E aí o filme tem criança apanhando, sofrendo, um homem matando sua esposa, o sangue escorrendo. Essa é sua idéia de filme pra criança? Porra, Romek! Mas o pior é que falta emoção, o filme é frio, e não deveria ser. Sem peitinho (só faltava, né?).

15º - Busca Frenética (1988) – Gosto muito do começo desse filme, de como você construiu o clima de tensão em uma viagem de um casal à França, em que tudo parece bem, mas sabemos que algo vai acontecer. Depois, vira um thriller apenas competente. Mais uma vez, esperamos mais de você, por isso a decepção. Peitinho da Emmanuelle Seigner.

14º - A Faca na Água (1962) – Acho que não é demérito nenhum este filme estar nessa posição. Foi uma estréia ousada e eficiente esta sua, mostrando já alguns dos temas que estariam presentes mais pra frente na sua carreira, além de sua maestria e estilo. Peitinho da Jolanta Umecka.

13º - Repulsa ao Sexo (1965) – Catherine Deneuve como uma frígida homicida. Um filme angustiante, e quase mudo. Você disse tudo através dos olhos de sua protagonista. Em seu segundo filme, um pequeno gênio começava a aparecer. Sem peitinho de La Deneuve.

12º - O Inquilino (1976) – Forma com “O bebê de Rosemary” e “Repulsa ao sexo” a sua “Trilogia do Apartamento”. A loucura chegando aos poucos para seu protagonista, que é interpretado por você mesmo. Sacaninha. Era só pra beijar a Isabelle Adjani, né? Mas sem peitinho.

11º - O Deus da Carnificina (2012) – Boa escolha de atores, Seu Romek. Com Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reily era difícil errar, não? O texto também era bom, de uma peça de sucesso. Enfim, tiro certo. Méritos seus pelo tiro. E sem peitinho, apesar de Winslet aparecer de sutiã.

10º - Macbeth (1971) – Logo depois daquela tragédia na sua vida, do assassinato da sua esposa, você me faz Macbeth? Com sua trama de assassinatos, estupros, traições e loucura? Admiro sua coragem. O filme é perfeito, ótima reconstituição de época, boas atuações, direção segura. E um textinho bom, baseado num tal de Shakespeare. Peitinho (e tudo o mais) de Francesca Annis.

9º - A Morte e a Donzela (1994) – A primeira vez que vi esse filme, com 17 anos, seus temas eram muito difíceis pra mim. A revisão me mostrou um grande estudo sobre a vingança e os traumas que a tortura faz na alma. E você mandou bem, porque com apenas três personagens fez um filme que não fica chato nunca. Peitinho de Sigourney Weaver.

8º - Armadilha do Destino (1966) – Apenas seu terceiro filme, e pra mim a sua maturidade como artista. Um tema parecido com o de seu primeiro filme (a disputa entre dois machos por uma fêmea que nem está assim tão interessada em nenhum dos dois), mas com mais recursos financeiros, e uma história mais elaborada. Peitinho de Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve.

7º - O Escritor Fantasma (2010) – Pequeno Romek, aqui você encontrou o equilíbrio perfeito que o suspense pede pra que continue suspense e não fique chato. Sabe, não é tão fácil. Você mesmo já errou nisso. Gosto de suas escolhas no filme, dos atores aos cenários. E adoro esse final, provavelmente o seu melhor. Poético e triste. E sem peitinho.

6º - Quê? (1972) – Eu sei, Romek, até você se surpreendeu agora. “Quê?” é um de seus filmes menos famosos, menos apreciados, etc e etc. Mas eu simplesmente adorei essa comédia maluca e surreal. E me diverti muito com ela. “Alice no País de Polanski” é como eu a chamaria. E ela  termina sugerindo seu próprio nome. Genial. Peitinho (durante todo o filme) de Sydne Rome.

5º - Lua de Fel (1992) – Outro filme que eu vi muito novo, e era incapaz de captar em toda sua complexidade de temas. Forte, por vezes cafona, às vezes até um pouco fabulesco, e por fim trágico, este é um filme inesquecível. Sei que também não é comumente considerado um clássico seu, mas pra mim é. Talvez o apreço de minha namorada pelo filme  tenha contribuído, confesso, Romek. E, me desculpe dizer, sua esposa está magnífica no filme, em vários aspectos. Aliás, peitinho de Emmanuelle Seigner.

4º - Tess – Uma Licão de Vida (1979) – Romek, peço desculpas pelo subtítulo nacional, realmente desnecessário. Tess já é suficiente, e a história dessa mulher é um épico emocional e trágico, que você adaptou com maestria para as telas. E apresentou ao mundo Nastassja Kinski, com uma grande atuação. E que raiva dos dois personagens masculinos que fodem com a vida dela! Peitinho de Nastassja Kinski, dando de mamar.

3º - O Pianista (2002) – Tá, Romek, eu sei que esse é seu filme preferido entre os seus. Mas pra mim ele fica num honroso 3º lugar. Seu retrato dos horrores da segunda guerra, sem concessões, é absurda e tristemente realista, graças a sua atenção aos detalhes. Saímos do filme horrorizados, mas cientes de termos visto um espetáculo dirigido por um grande artista. O final feliz que você se permite é fazer seu protagonista sobreviver. E, claro, sem peitinho.

2º - O Bebê de Rosemary (1968) – Outro que foi uma delícia rever. Visto pelo primeira vez, aos 19 anos, eu achei ele muito bom. Revisto aos 32, achei uma obra-prima. A maneira como você constrói o clima de suspense, como Mia Farrow vai mudando de aparência a medida que sua paranoia aumenta, como ela vai montando o quebra-cabeça satânico e nós vamos juntos com ela, refletem seu gênio. Isso sem falar nos contrastantes créditos iniciais em rosa, pra gente achar que tudo ia dar certo. Peitinho da dublê da Mia Farrow.

1º - Chinatown (1974) – Esse é um caso curioso. Quando eu tinha 17 anos recém-feitos, o vi pela primeira vez, sabendo que era um clássico. Gostei bastante, mas achei confuso. Tolinho que eu era, achei que a trama envolvendo falta de água, empresários gananciosos e etc,  fossem o principal do filme. Não são mesmo. Renovando a tradição do cinema noir, seu filme é mais sobre personagens, e sobre a constatação da sordidez do mundo. Um personagem querendo fazer a coisa certa em um mundo absolutamente amoral e corrompido. E ele não consegue, como quase nunca ninguém consegue em seus filmes. É chover no molhado dizer que Jack Nicholson está soberbo, que Faye Dunaway nunca esteve tão bem, entre outras coisas. Tá, vou te poupar dos clichês. Puta filme do caralho, Sr Polanski! E peitinho da Faye Dunaway...





sábado, 6 de abril de 2013

Segunda-feira




Eu não queria ir e não tinha argumento pra justificar isso. É caro. "Tenho de estudante, menos de 100 pilas". É longe. "É onde você gosta de estar e tem casa pra ficar". Não gosto de multidão. "É arquibancada, bobo, sentadão". Não sei se mereço. "Vá pra merda".

Eram 7 da manhã e chovia horrores na cidade mais bonita do mundo. Era domingo. Aos domingos também chove na cidade mais bonita do mundo. O ônibus quase vazio passa pelas Laranjeiras, e sorrio, tá ali o Flu, depois vem Flamengo, Botafogo, olha a Urca lá no fundo, sinto Copacabana por perto. Meu mp3 tem 35 músicas. Retorcidas e repetidas à exaustão em meus ouvidos solitários, e todas dele, do cara ali.

Meu amigo, fraterno mas sem abraços, abriu-me sua residência e eu estava há duas quadras, não da praia de Copacabana, mas dele. Isso me perturbava mais que a chuva. Que diminuiu, mas não deu praia. Na Globo, Palmeiras x Botafogo, meus amigos se arrumam e vão ao encontro dele.

O meu ingresso é de segunda-feira. O Palmeiras ganha, 1x0, visto a camisa e ando duas quadras. Copacabana Palace. Frenesi, jovens esperando que ele saia, e parta para o show. Sorrio em ver minha geração emulando outras. É parecido com o que já se viu nos vídeos por aí.

Um KFC e umas cervejas depois, volto pra casa, mas não tenho como assistir ao show, ao vivo e em HD, a um clique via internet. Trapaça, spoiler. Peço pra não me contarem nada, quando voltam eufóricos. "Melhor dia da vida", se limita um deles.

MP3 carregado, faz sol, é segunda, é hoje, e eu tomo sol a manhã toda, sozinho, eu e as 35 músicas, na frente do hotel dele. Bom, eu estou de sunga há 100 metros dele, isso há de ter sua relevância reconhecida. Almoço num bar com ambiente de Copa do Mundo. Dúzias e dúzias de pessoas, todas com roupas dele, bandeiras dele, dos Beatles, comem, cantam, fotografam. Eu sorrio tenso.

O encontro com meu caro amigo curitibano se dá 16h. Atrasamos. Mas lá estávamos, ainda dia, já na fila, como está o Paraná, como está SP, e o Coxa, e o Porco, entramos, 18h, para quatro intermináveis horas, eu, ele, seu irmão, uma garota que já não lembro o nome. Não tínhamos assunto, simplesmente. Lotou.

Ele aparece, suspensórios e acenos, e eu não mais sorrio. Tento lembrar quando foi que ele deixou de ser alguém que gostava para virar isso tudo dentro de mim. Doeu. Queria minha mãe ali, e o Marcílio, o Feu, queria desfrutar mas não era bem o que dava pra fazer. Chorei bastante na bandeira brasileira que o curitibano levou e não teve onde amarrar. Ver o Paul McCartney no Rio de Janeiro é mais que ver uma Final de Copa. E foi mais do que eu podia supor. Foi potente, e longo, e sobretudo bonito. Shows são caros no Brasil. Momentos inesquecíveis em uma vida não tem preço.

Saem abraçadas as várias gerações presentes no estádio. Cantam Hey Jude na rampa em caracol. Compro o broche mais feio da história para levar até mamãe. Encontro meu anfitrião. Ele foi de novo, no impulso, via cambista. Voltamos pro nosso bairro, nosso e do Paul, devoramos uma pizza, 2 litros de Coca, e caminhamos pra casa. Antes, paramos na frente do hotel.

Esperamos por algo, por alguns minutos. Tudo podia acontecer, eu achava que ele já estava lá, meu amigo achava que não. Seja como fosse, não o veríamos, não mais do que já havíamos visto. É essa coisa forte que a gente tem, que não sei como se chama, que faz uma fachada de hotel ser contemplada à espera de efetivamente nada. Ritos, gestos devotos, declarações de amor. Gratidão pelos 4 únicos homens que realmente mudaram o mundo.

terça-feira, 19 de março de 2013

Eu e os quatro


Lá estava eu em casa, um fedelho de uns 13 anos. Naquela época, 1993 ou coisa assim, pai e mãe ainda não estavam separados. Vida de estudante que morava a um quarteirão da escola. Tranquilo, com muito tempo em casa. Muitas vezes, sozinho. Antes de entrar no assunto do texto, voltemos um pouco.

Desde sempre, músicas dos Beatles rolaram em casa. Apesar de não ter consciência do que era aquilo, eu os ouvia, porque meus pais, mais o pai do que a mãe, ouviam muito. Algumas melodias ficaram gravadas na mente do pequeno que eu era, notadamente aquelas com melodias infantis, que os famosos quatro de Liverpool eram pródigos em fazer. "Yellow Submarine" seria o óbvio, mas acho que os refrões de "Maxwell´s Silver Hammer" e "The Continuing Story Of Bungalow Bill" me marcaram mais nessa época que eu nem sabia o que estava ouvindo.

Voltemos ao futuro, ou melhor, ao passado, mas não tão passado. A 1993, onde eu comecei essa porra de texto. Certo dia, do qual não me lembro perfeitamente, provavelmente sozinho em casa, comecei a mexer nos discos de meu pai. Peguei um LP quase todo branco, com quatro homens fazendo gestos com os braços. Chamava-se "Help!". Coloquei aquilo na vitrola pra ver do que se tratava. Acho que vale um adendo: nessa idade nossos gostos musicais estão sendo burilados. Eu ouvia de um tudo. Até Chitãozinho e Xororó. Que são bons no que fazem, diga-se. Meu pai e minha mãe nunca foram tiranos, em nada, muito menos em música. Não me forçaram a gostar de música boa, da música que eles gostavam. A coisa foi natural. Mas tergiverso. Fato é que, daquele dia em diante, fiquei fã. Não dos Beatles, em princípio. Fiquei fã do "Help!". Ouvia o "Help!" todo dia, mais de uma vez por dia.

Eu disse antes que meu pai era mais fã dos Beatles do que minha mãe. Mas tenho uma memória belíssima em relação a "Help!" e à minha mãe. Fui ajudá-la com as compras no Carrefour, único supermercado de São José dos Campos à época. Era o início da era dos CD´s, que acabariam por exterminar os LP´s, mas que também não durariam muito, sendo exterminados por...bem, por nada, por um consumo de música sem critério e sem fichas técnicas, que reprovo, mas entendo como natural da evolução (ou involução?) humana. No referido mercado, demos uma passada pelo setor musical, onde vi o cd do "Help!". Acho que fiz algum comentário, mas passamos batido. Pouco depois, quando começávamos as compras de fato, olho para o carrinho e percebo, maravilhado, que o cd estava lá dentro, dançando sozinho, sem mais nenhuma compra ao seu lado. Mamãe tinha pego um, sem que eu percebesse. Foi meu primeiro cd dos Beatles.

A partir daí, não parei mais. Depois do "Help!", parti para os outros discos da bandinha. Ia pegando um por um, em casa, maravilhado com cada descoberta que fazia. Não sabia a ordem que os discos haviam saído, apenas ia pegando o que estava ali na estante, e degustando, sentindo os sabores. Ah, que inveja daquele menininho, ouvindo pela primeira vez, com atenção, às peças saídas das cabecinhas cabeludas daqueles quatro. Ouvi cada LP incessantemente. Traduzi grande parte das canções com a ajuda de um dicionário, e posso dizer que os Beatles são parcialmente responsáveis pelo meu razoável domínio da língua inglesa.

De lá pra cá, virei beatlemaníaco. Não sei quando uma pessoa deixa de "gostar dos Beatles", ou "achar os Beatles legais pra caralho", e vira beatlemaníaco.

Se alguém me disser "Ring my friend I said you call...", eu vou dizer "Dr Robert!". Quando atendo velhinhos lá no banco, fico procurando alguém que tenha nascido em 09 de outubro de 1940, como John Lennon. Ainda não encontrei. Imitando meu amigo Lucas Nanini, também beatlemaníaco, quando alguém me pergunta a maior banda da Terra, eu respondo Belle & Sebastian (ele responde Led Zeppelin), porque os Beatles estão em um patamar acima. Noel Gallagher (vocalista e compositor da banda Oasis, que Deus a tenha) disse que das 50 maiores músicas pop de todos os tempos, 49 são dos Beatles, e a 50ª é "Wonderwall", da banda ele, e é mais ou menos o que penso, tirante o fato de que "Wonderwall" perderia lugar na 50ª posição para "Sexy Sadie".

São coisas assim que fazem um beatlemaníaco, acho. E por esse privilégio agradeço aos óbvios John, Paul, George e Ringo. E aos menos óbvios papai e mamãe.