Moro pela primeira vez no centro de
São Paulo. É uma nova relação com este lugar que me tem no mundo quase que a
contragosto, e, juro, me encho de boa vontade para gostar disso tudo.
Já no segundo mês, um confronto entre
a população e o Estado brotou debaixo do meu apartamento, na frente da minha
porta. Todos já disseram algo sobre isso. Até a Thaila Ayala, que eu mal sei quem é, mas é esposa do Paulo Vilhena, que não é policial nem
manifestante, mas bate em mulheres e não está preso, mas isso é outro
assunto. Não quero ser repetitivo.
Impressões pessoais.
Acompanhei com distância os dois
confrontos iniciais (e dane-se se uso a palavra confronto, ou manifesto, ou
banzé-de-gato, por favor, sem fazer juízo de valor em tudo que se digita).
Participei do terceiro e vivi intensamente o quarto. Virão outros.
Chovia forte. Fui andando do trabalho
à Paulista, ouvindo Sandra de Sá no fone, uma trilha sonora bizarra para a
ocasião e a tensão ao redor. Demorei pra chegar na marcha que já avançava. O
barulho, ao longe, era de um estádio. Apressei, logo vi bandeiras, faixas,
buzinas, fogos, tudo que, junto da chuva e de milhares de pessoas espremidas e
entusiasmadas, me colocaram num cenário familiar. Um estádio daqueles que
agora, no Brasil, ficaram fora de moda e sem bandeira nem faixa nem gente
espremida nem entusiasmada e cobertos para que eu não tome chuva.
Encontrei amigos. Vários. De tudo que
era "rolê". Aquilo me dizia respeito, pensei. A tal da liderança, do
tal do nome utópico Movimento Passe Livre, é composta por gente muito jovem e
trabalhadora. Na faixa de trânsito não-interditada para a andança, membros do
Movimento falavam educadamente com os motoristas de carro. "Desculpa, já
vai melhorar, boa viagem, obrigado pela compreensão". Vi um ônibus sendo
incendiado na Sé. Pessoas do MPL chegaram antes mesmo da polícia e apagaram o
fogo sei lá como. Pacifistas contra o vândalo. A polícia não prendeu quem fez
isso. Nem quem pixou muros em excesso. Ineficiente. O ônibus entrou na
estatística de vandalismo. O vândalo não entrou na estatística de presos. Os
apagadores de fogo não entraram na lista de pacifistas. Isso tá errado. Vá lá.
Em frente.
Chegamos no terminal Dom Pedro, já sem
a companhia da chuva, e eu comento: a polícia já deixou andarmos por mais de duas
horas, sem repressão, dando um jeito no trânsito, palmas para eles. Pronto.
Bomba. Tiro. Muita bomba. Me sinto um rato. Eu invado um cortiço fétido,
inabitável, e, com garganta e olhos comprometidos, levemente desesperado, cuspo
sem parar na sala de uma família qualquer. Que não me repreende, e sim me dá
água. Me desculpo pela invasão. Outros também invadiram. Não somos intrusos.
Volto pra casa. Os conflitos maiores
começam e eu acompanho ao largo, vendo de longe, caminhando noutra direção. O
povo faz o caminho de volta igual ao de ida, e, aí sim, o faz quebrando coisas
por nada, sem contexto. Até chegarem na Paulista. Quebram os vidros metrô.
Vitória da Polícia, vitória do Estado interessado na má notícia. A depredação
só aconteceu depois das bombas, mas, sobretudo, só aconteceu depois que o povo
se dispersou, e a liderança do Movimento já não estava na frente. Isso é
relevante.
Um amigo de 26 anos, 20 deles ao meu
lado, voltando pra casa sozinho como eu, teve pior sorte. Apanhou de 5
policiais. A muleta virou sua parceira. Outro amigo foi preso quando já parecia
tudo encerrado. Foi um dos que perdeu a cabeça. E teve o nariz quebrado mesmo
sem reagir à prisão. Aquilo era uma derrota ao meu coração, o sofrimento
coletivo e meu, agora tinha símbolos com nome e sobrenome de amigos. Deu
errado, o protesto, para alegria de Arnaldo Jabor, Datena, Veja, Folha, Globo,
todos mais (Jabor disse em rede nacional que em SP "a causa dessa gente é
não ter causa", ora, um paulistano tem 50 causas relevantes para protestar,
o transporte público é só uma delas).
A vida seguiu, menos para meu amigo
que continuou preso.
Dois dias depois, o novo protesto.
Tudo mudou. Mal começa a noite e os relatos assustam. Pessoas são revistadas ao
sair do metrô, abordadas nas ruas perto da Paulista, o vinagre é detido, a
esquizofrenia corre solta. Cerca de 60 são presas ainda antes de começar a
andança, num gesto intimidador aos demais. São presas como se pesca tainha:
numa baciada só, numa jogada de rede, aleatória. Entre as pessoas detidas, boa
parte da liderança do MPL. Sem liderança, o prato fica cheio para os tais dos
vândalos. Tensão sobe. Pintam relatos de jornalistas agredidos por simplesmente
trabalhar no registro de imagens. Sim, esqueça aquela paciência de terça.
Pouco se anda. Na hora de subir a
Consolação, falta liderança dos dois lados. Uma está presa ou engolida pelo
espontâneo e numeroso público. A outra liderança parte pra bala e pra bomba.
Perde o controle e a noção. Empurram 15 mil pessoas para outras ruas, no meio
de carros, e retomam as bombas quando estes chegam à Rua Augusta para o mesmo
objetivo: a Paulista. A Paulista que a PM interditou para evitar que a
manifestação lá chegasse.
Caos no transito que, um dia antes,
por causa da chuva, e não de protestos, bateu recorde anual de lentidão.
Dois jornalistas tomaram tiros nos
olhos. Veja bem: nos olhos. Simbolismo claro para fotógrafos. Uma delas, da
Folha de S. Paulo, cujo editorial do jornal do mesmo dia dizia "retomem a
Paulista", encorajando a polícia num eco do que o Governador havia dito.
Sobram vídeos de abusos e relatos selvagens, mas esta frase aqui é mais forte,
ó: dois fotógrafos trabalhando tomaram tiros nos olhos. Um cegou. Não faria
sentido nem se fossem bandidos do outro lado. Não eram, eram jornalistas, e
mesmo que fossem 50% de bandidos entre os milhares do protesto, 90%, ainda
assim a visão do jornalista atingido não podia pagar a conta. E pagou. Por
culpa do patrão dele, indiretamente, inclusive.
A polícia que conclui apenas 2,5% dos
casos de crime na cidade. Absolutamente fora da realidade e desproporcional ao
fato, ela dá tiro em homens e mulheres, sem distinção, pedindo paz ou
insultando, não importa. Sobra pra todo mundo. Fica constrangedoramente claro o
excesso.
Com exceção de Veja, Globo e algumas
outras trincheiras surdas e passionais, toda a imprensa brasileira destaca o
destempero policial. Até o Datena reconhece e o Jabor segura a arrogância para
calar-se. Vitória do manifesto, vitória do povo, 1x1. Manifestações no RJ
também acontecem. O cenário é quase igual. As redes sociais vão aumentando a
lista de provas do que ocorreu, e eu, bem, eu acho bonito aquilo tudo pelo
ponto de vista dos manifestantes ganhando adeptos num protesto que deveria ser
de adesão, ou ao menos respeito, por parte de todo o resto da população.
Eu vou recuar um pouco.
Estive no Pinheirinho ano passado, uma
área de barracos desapropriada na base do cacetete por ser, o terreno, de
propriedade de um lobista que nada fez, ainda, com a posse desabitada. Foi um
massacre de estratégia burra e covarde que destruiu uma comunidade constituída
e pulverizou o patrimônio de muita gente miserável. Eu quis saber do Comandante
da PM que conduziu a operação o motivo de tanta dureza.
Por 50 minutos ele me atendeu, e foi
muito educado e claro, e simpático também.
Lá, me disse repetidas vezes: "a
PM vive do ´cumpra-se´. Quando está no papel, no mandado, a palavra
´cumpra-se´, ela cumpre. A PM não discute, ela cumpre". É sórdido, é pouco
humano cumprir sem refletir, o caso era de reflexão humanista em um país onde
muitos não tem outra opção de vida que não seja trabalhar muito pra ganhar
apenas o suficiente pra viver numa favela em um lugar impróprio ou ilegal, mas
é uma lógica, vá lá.
Policiais são pessoas. Acham coisas
certas e erradas igual qualquer um, e sofrem pressões externas, e pressionam a
si mesmos. E cumprem ordens. No caso, do Governador. Que por sua vez ordena
coisas para satisfazer uma parte da população que é refletida nos jornais
conservadores que lhe poupam de investigações maiores, como poupam Lula, Dilma,
todos. Sociedade classista quer, mídia apóia e aconchega, Governador
acha uma boa, e põe nas ruas uma porção de homens despreparados que pouco sabem
pelo que estão cumprindo. É conveniente para a pirâmide de poder. O dinheiro
pressiona a cidade junto, afasta periferia e centro, e quando 10 mil finalmente
explodem, e viram 20 mil, parece uma coisa do outro mundo. Não é. Manifestos de
100 mil nas ruas, estes sim, são dignos de registro. os de 20 mil deveriam ser
normais e familiares à polícia e à população, pena que não são.
O "cumpra-se" vive nos
estádios também, onde a PM oprime todos só porque tem 50 bandidos no meio de
uma torcida organizada, mas que, misteriosamente, não são presos nunca, talvez
porque exista um teatro aí, e a policia não queira comprar essa briga, porque
existem muitas outras coisas por trás, e aqui eu faço uma reflexão importante:
quem realmente manda na cidade e cala a polícia quando se mexe chama-se PCC.
Quando estes comprarem alguma briga, aí sim estaremos perdidos. Jogar bomba em
Movimento Passe Livre, desculpe, é café pequeno demais, é fácil. As grandes
brigas diárias e violentíssimas nesta cidade não são combatidas da mesma forma.
Vale dizer que um mês atrás choveram
denúncias na Virada Cultural, evento pessimamente organizado pelo Prefeito do
PT Fernando Haddad, um sujeito pelo qual nutro profundo descrédito. As denúncias
eram de boicote da PM, que assim, deixando arrastões e roubos e violências
acontecerem sem qualquer reação, protestavam contra a vida de merda que
possuem, com muita pressão e pouco salário. Este era o grave protesto deles:
deixaram o evento virar uma zona de assalto livre.
Não sei, estou palpitando, não li
sobre isso em lugar algum, mas meu travesseiro me fez ligar um ponto ao outro.
Insisto em ver na polícia uma porção de seres humanos, em um momento de crise
com seus chefes. E você imagina o conflito de uma corporação que vive de
"cumpra-se", quando o homem que os manda cumprir algo é visto como
inimigo. Contudo, quem toma bala no olho ou no corpo quando pede algo sem
violência jamais vai imaginar este conflito. É por isso que confrontos costumam
não ter fim. O revide é um contágio.
Voltando para o atual: meu amigo foi
solto, e o outro começa a andar novamente. Começa um ensaio de ciclo vicioso de
povo insuflado contra polícia desnorteada. Um povo que vai acabar depredando de
novo e perdendo a razão. Uma polícia que vai dar uma maneirada nas bombas para
reconquistar a opinião pública e ganhar a razão. Depois, de novo, a tal da
razão vai se inverter. E a briga vai ficar extensa e repetitiva e sem o sentido
saudável que até agora teve (esqueça isso de prejuízos imensos ao patrimônio
público, é relativamente pouco, quase nada, em comparação com qualquer protesto
realmente maciço pelo mundo).
Os otimistas acham que isso vai acabar
em movimento revolucionário por uma cidade e um país melhores. Eu, que dormi
mal pensando em meu amigo preso, acho que isso vai acabar em morte e muitas
outras mais prisões de gente de bem. Esta cidade sofre da Síndrome de
Estocolmo, e de fato é a única coisa de Estocolmo que existe nela. Andei pela
cidade. Senti a cidade. Me parece um momento raro, desses difíceis de se
esquecer e que podem mudar uma cidade por alguns anos. A turma do vinagre de um
lado, o terno e gravata que dá ordens pra turma de escudo e espingarda do outro
lado. A cidade e suas pessoas no meio. Nem todas querendo mudanças e igualdade,
algumas satisfeitas com as loucuras que a metrópole sustenta. Mas todas terão
que entender que são dias diferentes, e isso pode significar um amigo preso, um
amigo tomando tiro no olho em pleno trabalho, ou, na melhor das hipóteses, um
susto aqui, uma meia-hora a mais no trânsito acolá.
Terminei a quinta-feira jogando sinuca
num subterrâneo da Santa Cecília. Não falamos de bombas, jogamos 6 partidas e
eu ganhei 4. Não pensamos em vingança, pensava em meu amigo preso a cada batida
na bola branca. "A cidade está tensa até aqui", me falou o perdedor
da sinuca. "É porque você tá apanhando de mim", respondi para não ter
que concordar.
Incrivelmente, ao ver um movimento em
favor dos Severinos da periferia, acho que estou começando a gostar do centro
desta cidade. Ao menos eu vi gente viva, errante ou não, com loucos e
baderneiros por perto, como será sempre na vida.