sábado, 6 de abril de 2013

Segunda-feira




Eu não queria ir e não tinha argumento pra justificar isso. É caro. "Tenho de estudante, menos de 100 pilas". É longe. "É onde você gosta de estar e tem casa pra ficar". Não gosto de multidão. "É arquibancada, bobo, sentadão". Não sei se mereço. "Vá pra merda".

Eram 7 da manhã e chovia horrores na cidade mais bonita do mundo. Era domingo. Aos domingos também chove na cidade mais bonita do mundo. O ônibus quase vazio passa pelas Laranjeiras, e sorrio, tá ali o Flu, depois vem Flamengo, Botafogo, olha a Urca lá no fundo, sinto Copacabana por perto. Meu mp3 tem 35 músicas. Retorcidas e repetidas à exaustão em meus ouvidos solitários, e todas dele, do cara ali.

Meu amigo, fraterno mas sem abraços, abriu-me sua residência e eu estava há duas quadras, não da praia de Copacabana, mas dele. Isso me perturbava mais que a chuva. Que diminuiu, mas não deu praia. Na Globo, Palmeiras x Botafogo, meus amigos se arrumam e vão ao encontro dele.

O meu ingresso é de segunda-feira. O Palmeiras ganha, 1x0, visto a camisa e ando duas quadras. Copacabana Palace. Frenesi, jovens esperando que ele saia, e parta para o show. Sorrio em ver minha geração emulando outras. É parecido com o que já se viu nos vídeos por aí.

Um KFC e umas cervejas depois, volto pra casa, mas não tenho como assistir ao show, ao vivo e em HD, a um clique via internet. Trapaça, spoiler. Peço pra não me contarem nada, quando voltam eufóricos. "Melhor dia da vida", se limita um deles.

MP3 carregado, faz sol, é segunda, é hoje, e eu tomo sol a manhã toda, sozinho, eu e as 35 músicas, na frente do hotel dele. Bom, eu estou de sunga há 100 metros dele, isso há de ter sua relevância reconhecida. Almoço num bar com ambiente de Copa do Mundo. Dúzias e dúzias de pessoas, todas com roupas dele, bandeiras dele, dos Beatles, comem, cantam, fotografam. Eu sorrio tenso.

O encontro com meu caro amigo curitibano se dá 16h. Atrasamos. Mas lá estávamos, ainda dia, já na fila, como está o Paraná, como está SP, e o Coxa, e o Porco, entramos, 18h, para quatro intermináveis horas, eu, ele, seu irmão, uma garota que já não lembro o nome. Não tínhamos assunto, simplesmente. Lotou.

Ele aparece, suspensórios e acenos, e eu não mais sorrio. Tento lembrar quando foi que ele deixou de ser alguém que gostava para virar isso tudo dentro de mim. Doeu. Queria minha mãe ali, e o Marcílio, o Feu, queria desfrutar mas não era bem o que dava pra fazer. Chorei bastante na bandeira brasileira que o curitibano levou e não teve onde amarrar. Ver o Paul McCartney no Rio de Janeiro é mais que ver uma Final de Copa. E foi mais do que eu podia supor. Foi potente, e longo, e sobretudo bonito. Shows são caros no Brasil. Momentos inesquecíveis em uma vida não tem preço.

Saem abraçadas as várias gerações presentes no estádio. Cantam Hey Jude na rampa em caracol. Compro o broche mais feio da história para levar até mamãe. Encontro meu anfitrião. Ele foi de novo, no impulso, via cambista. Voltamos pro nosso bairro, nosso e do Paul, devoramos uma pizza, 2 litros de Coca, e caminhamos pra casa. Antes, paramos na frente do hotel.

Esperamos por algo, por alguns minutos. Tudo podia acontecer, eu achava que ele já estava lá, meu amigo achava que não. Seja como fosse, não o veríamos, não mais do que já havíamos visto. É essa coisa forte que a gente tem, que não sei como se chama, que faz uma fachada de hotel ser contemplada à espera de efetivamente nada. Ritos, gestos devotos, declarações de amor. Gratidão pelos 4 únicos homens que realmente mudaram o mundo.

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