quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O auge urge

Uma ignorância que, vi depois, era proposital, filha preguiçosa do absoluto desinteresse no mínimo raciocínio, sapateou na cabeça segundos antes do mergulho. Algum receio estúpido de correr um risco impossível, um sinal inequívoco do quanto um cérebro urbano, ou pior, paulistano, consegue se apequenar diante do anódino. Fato é que não foi um pulo de peito aberto, tal qual o camarada Feu acabara de fazer, molhando infame as duas gringas e o rapazote que descansavam no pier como se a vida estivesse ganha, e estava. Foi com medo, o salto.

Ora, era um rio, um riacho, nada mais. Um canal. Era água. Tão natural quanto a vida quase nunca é, sem qualquer menção de segredo ou truque. Você cai na água e nela fica, pra lá, pra cá, e tira a sua chinfra. Ali estava meu primeiro riacho na vida adulta, o que em primeira instância não quer dizer nada, e em segunda também não. O Feu, ali no rio comigo, pouco antes dissera sobre mim, ou para mim, na verdade a respeito da minha idade, que era pra eu me ligar, você tá no auge, moleque, e eu fiquei pensando nesse tal de auge, que porra é essa de auge, enquanto boiava nas águas calmas. 

A Raquel, por exemplo. Nos convidou para um forró. Depois para uma praia deserta. Ela adorava sinceramente ambos os cenários, respectivamente um cativeiro e um atalho para o nada, onde fomos enfiados, qual o quê, praia mole, joaquina, o john bull e seu letreiro gigante nada significam pra Raquel e seu gosto alternativo. Temos, suponho presunçoso, idades parecidas, e eu não quero criar antagonismos entre nós, só sugerir que esse negócio de auge, de ponto alto, seja uma trapaça retórica, tão subjetivo, ou impreciso e mentiroso quanto uma página de horóscopo, e eu não quero comprar briga com quem acredita nisso, mas dar um golpe nessa coisa de cronologia, de vida temporal. 

Porque se estamos falando de um relógio, e os 28 anos são o tal do auge, e o tempo não dá tempo, e a gente se pretende seguir e envelhecer, então eu sinto pressa, urgência, estou sendo empurrado e não gosto, o Feu também sente e me disse sentir, e isso não é certo. Se é assim, então concluo que o auge urge, e não devia, pois assim se sabota no mesmo instante. O auge demanda paz, não pressa.

É uma colônia de pescadores, com ruas apertadas, paralelepípedos e gente andando neles, local de rendeiras e matutos, onde eu escolhi estar sem muito a esperar. Debaixo de um maldito e bendito ar condicionado companheiro no não-sono, através de alguns cliques no celular e um pouco de coragem e sensatez, pincelei um 2013 que, tacanho, neguei a mim mesmo em 2012. Recebemos visitas, das quais uma ficou e outra, ao menos, me abraçou, gesto que acompanha o perdão, sempre. A comovente bagunça que sou capaz de fazer em quartos que se propõem meus não se alterou. Sinal de adaptação, em contraponto ao riacho, a tudo que não era meu e ao sotaque que não sei imitar.

Não faltava muito para dar meia-noite quando ela apareceu com flores roubadas pra jogar no mar, Iemanjá e tal, e rosas vermelhas estampadas no vestido sem alças. Mergulhou mais de uma vez, inclusive, ao passo que o rapaz que aparecera junto, alucinado, não só mergulhou como voltou pra casa à nado, pelo canal. Eu, seco, curtia a lua, calculava coincidências possíveis e pensava, afinal, por quê não o auge, por quê não agora? "Feliz ano novo, meu irmão", disse o primeiro a falar comigo em 2013, apertando meu pulso com uma mão e me dando a batida de abacaxi com a outra. Ele virou o ano fazendo uma batida pra mim e isso é tão banal e legítimo quanto explodir um rojão. Dizem que os rojões afastam os maus espíritos. O meu estava aquietado com a idéia, metade banal metade bestial, de assumir todo esse otimismo aí, reveillón deve servir pra isso, afinal, abracemos alguma palavra de ordem que seja boa, e se a vida se apresenta boa, então que se torne maravilhosa e sem muitas conexões com o mundo real, aquele lá atrás, duro e faminto e que corta o barato de quem não relaxa. 

Mergulhos desastrados em mares revoltados houveram de pintar e fizeram rir e brincar. Mais tarde, noutra praia e estado, naquele mar que ainda é meu, foram vários os minutos sem uma onda sequer nem vestígio de pessoas. Água calma com chão de areia grossa, tão parecido com o riacho pouco familiar de dias antes. Mergulhos novos dão medo, ainda que pareçam mais do mesmo, triviais, e  mesmo que não dêem, causam alguma espécie de coisa qualquer, que é da hora, não a gíria, mas da hora que o relógio  não capta, da chance e da opção que surge de, se tiver presença de espírito, desligar e desfrutar daquilo que criou pra si. Estando onde se esforçou pra estar, porque quis estar, sem outros motivos. Estas coisas que não podem ser corriqueiras. Quando mergulhei, literalmente de cabeça, no colo dela, pra dormir, pro tempo passar, pra 2013 enfim começar sem fantasias, me peguei debochando de novo dessa coisa de auge, essa hipérbole, essa forçada de barra só pra se sentir legal - como se isso fosse pouco. Mas aí veio o cafuné no cabelo, preguiçoso e previsível, sintético portanto, e o deboche, com 2012 motivos para sumir, ficou pra trás, em algum lugar da BR que eu já não sei qual era mas que passei, trazendo na mala um ano e um motivo a mais pra seguir.  

Um comentário:

  1. Li mais de uma vez, pra pegar as profundezas. Não sei se elas me vieram como deviam, mas se há subjetividade no texto, há na interpretação. O poeminha que escrevi e publiquei fala de morte, que pode ou não ser literal. Pode ser só um mergulho...

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