Era um feriado prolongado, e eu fiquei sozinho em casa. Namorada no Rio de Janeiro, mãe na Praia Grande. Acho que era um sábado, e minha vontade era beber umas cachaças enquanto ouvia música. Simplesmente iria passar pelos meus cd´s, ouvindo uma ou duas músicas de cada, enquanto me embriagava. É uma sensação deliciosa beber quando se está com o espírito tranquilo, como era meu caso. Eu iria deixar a música entrar pelos meus poros, sentindo aquele leve torpor que o álcool dá.
Fui então ao supermercado, porque precisava de algo pra forrar meu estômago, uns piriris, pra comer enquanto tomava minhas caipirinhas. Cheguei ao estacionamento do mercado, e havia ali uma Kombi de entrega de mercadorias, ou coisa assim. Quando eu passei pra entrar no mercado, tocava "The winner takes it all", do ABBA, no som do veículo. Gostei de ouvir aquela canção, parecia já um começo da minha programação. "É raro alguém ouvindo ABBA, deve estar tocando no rádio", pensei. Um vez dentro do mercado, acho que acabei comprando os famosos nuggets, ou coisa que o valha, além de uns espetinhos de salsicha, azeitona e ovo de codorna, que me custaram 20 paus. Ainda cantarolando "The winner takes it all", saio do mercado, e a mesma Kombi permanecia estacionada, agora tocando "Mamma Mia!", também do ABBA. Senti uma alegria boba, apenas por saber que o cara estava ouvindo um cd, ou um MP3, que seja, do ABBA. Sorri sozinho.
Cheguei em casa e comecei a me preparar pra noitada. Fiz minha primeira caipirinha e dei um gole inicial. Numa fração de segundos, muitas coisas passaram pela minha cabeça, como "caralho, o limão tá estragado", "tô com alguma doença e perdi meu paladar!" e "puta que o pariu, essa cachaça deve ser gasolina!", até que, completando um segundo e meio de raciocínio, me veio o óbvio: "Caraleo, fiz a caipirinha com sal!". Gargalhei. Literalmente, e muito. É conselho: nunca façam uma caipirinha com sal no lugar de açucar. Quando o cara criou a caipirinha ele deve ter tentado isso, mas descartou a idéia rapidamente.
Já instalado no meu pufe, com minha caipirinha feita com limão, cachaça, açucar e gelo do lado, comecei a ouvir música. Em uma delas, me lembrei do Bill. Sei que ele gosta da música, chamada "Adia", cantada pela Sarah McLachlan. Mandei SMS pro referido caboclinho, dizendo algo como "Ei rapaz, ouvi Adia e lembrei de você". Fazia um tempo que eu não falava com ele, estava com saudades, e depois de mandar a mensagem comecei a pensar no nosso Monolito. Começou a me dar vontade de escrever de novo, junto com ele, como tínhamos deixado de fazer não se sabe bem porquê. Não liguem, eu até hoje não aprendi a usar aqueles quatro "porques" que a língua portuguesa tem. O fato é que pensei "se ele me responder a mensagem, vou falar pra gente retomar o Monolito". Ele não respondeu, e meu metodismo me disse que, se ele não respondeu, não era pra ser, então não falei mais nada.
Até que, no Natal, me veio esse texto aí abaixo, "Novo de novo", de presente. E eu pensei que as coisas acontecem quando tem que acontecer, por besta que pareça isso. A gente põe sal no lugar de açucar quando está precisando dar uma boa gargalhada. A gente ouve ABBA no carro de entrega do mercado, ao invés do Luan Santana ou do Michel Teló, quando o que precisamos é de beleza na noite. Só temos que estar atentos a ela. Estamos de volta, caro primo. Às belezas, às tristezas. Estamos de volta, sim, caro irmão.
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