Seria esta uma carta sobre carnaval. Que não tem mais a ver com a minha vida. Na minha (em todas?) cidade você mede a temperatura do carnaval pela calçada, pela sarjeta, e não estou falando do lixo, mas de algum rastro que fica, alguma pista abstrata que te faz ir pra lá ou pra cá, isso se for sua ventura estar no carnaval sem destino definido, e só assim se está efetivamente num carnaval, e, sendo o caso, é a calçada que te diz algo, seduz ou sugere, e se você entende o que ela fala e a rua sem carros atesta e reforça, então é porque você tem memórias - ou intuições - por dentro, memórias de outros carnavais, sensações abstratas de coisas e temperaturas que remetem a dias felizes, e é só o que o carnaval, meio exagerado e febril, tenta reproduzir: um tosco retrato de dias felizes somado ao melancólico e claro sinal de que podia ser sempre assim, festa, liberdade, calçadas e copos americanos até uma quarta-feira de cinzas que nunca chegaria com sua ressaca e sua desaceleração brusca que nos chama de volta tal qual os momentos tristes fazem nuns dias soltos por aí.
Daí que as andanças ganham algum motivo, uma andança documentada, uma andança estrangeira mas com passaporte no bolso, tá aqui, seu guarda, ó, este é meu passaporte dizendo que tenho boas memórias de tempos felizes e por isso posso andar por estas calçadas livremente no meio dessa gente legal e legalizada, meu visto de permanência se encerra em breve, eu sei, é na próxima quarta-feira, pode ficar tranquilo, não estou aqui para causar problema, não procuro por isso, eu obedeço.
Não procuro por nada. Preferia perder algo que tenho sem almejar ao invés de achar algo que supostamente deveria desejar. Se eu fosse jovialzão e persuasivo isso se chamaria independência, desapego fodido, aplausos pra ele, mas não é o caso, o passo é um pouco mais rústico e menos belo, então troca o termo, sai o independente, entra o sozinho, afinal a noção de liberdade que se tem atrás das portas por aí é parecida com a idéia de evolução, isso é, quem não quer nada concreto da vida mas é bacanudo e proativo e positivo e otimista e oportuno, então este alguém é livre, liberto dos signos e necessidades, um sujeito melhor, mas quem não quer nada e não ambiciona nem range os dentes num discurso aguerrido de futuro planejado, ah, este não é livre. É preso.
O preso que digita, então, andou pra cima e pra baixo, Augusta, Santa Cecilia, Roosevelt, Paulista, Frei, Diabos, e era como se o peso da voz mais doce do mundo ainda ricocheteasse na cabeça, "você parece preso", mas os pés, carimbando cada calçada, cruzaram bêbados todo um perímetro mágico aos livres e verdadeiro aos presos, e cruzaram sem passaporte, ilegal e sem benção, nem lei nem deus, nem perguntas nem respostas, e isto é uma vitória sem troféu, chegar no destino que nunca existiu.
Inimigos despistados, mundo a calmo, os pés audazes param de andar e se escoram nos calcanhares, como se fosse de propósito. Ainda ilegal, mas agora sem medo. Ainda ilegal, mas agora cúmplice. A cabeça finalmente copia os pés, sente-se bem. Os lábios copiam dos pés à cabeça os pés e a cabeça , e carimbam a noite noutros lábios, outrora ilegais mas agora não mais. É legal e sem polícia, a independência é prerrogativa, a solidão é ditadura e atraso, somos ricos benditos e bem-ditos, nativos daquela calçada sem pecado nem perdão. E nem era carnaval.
Agora, que é - e foram tantos - carnaval, sinto que a contradição me bate deliciosamente à porta e que o pulo do gato foi antecipar a andança, aproveitar a calçada ainda morna de uma quarta-feira comum e vadia, sem Cinzas, longe dos sábados, sem a obviedade que mata o pouco que sobrou de meu lado espontâneo soterrado por um par de ombros tensos e tortos e corcundas. O carnaval me frustra de alguma forma, talvez porque eu tenha ficado preso nele alguns anos e, ao sair dele, tenha deixado pra trás algo que não devia. Talvez também porque o carnaval simplesmente não é verdade, é um delírio coletivo, mas eu sinceramente não acredito nessa segunda tese. Preciso confiar que sou da turma do delírio, e não dos fatos reais. Da turma da liberdade, não do pragmatismo. Preciso crer que é possível ser um cara legal mesmo sendo chato - ela me disse algo mais ou menos assim, que sou chato mas sou legal, então eu acredito.
Nesse e em todos carnavais, muitos vão se perder no coração de mulheres que darão, na falta de uma calçada que fale e um trio elétrico que fuja, uma direção a se andar, pelo menos e provavelmente até o Rei Momo devolver as chaves da cidade ao prefeito. É da cultura dessa gente, o amor ligeiro e cafona vestido com plumas e a permissividade que falta nos meses de junho, julho e tal. Sou um infiltrado. Vou ver como é, de perto. Juro que gostaria de viver a vida que não vivo, de correr sempre pro cenário ideal, cruzar os arcos ao invés da Augusta, ver a Urca entardecer e não a Santa Cecília, andar por Botafogo e não Higienópolis, me perder, não no coração de mulheres mas nas ruas efetivamente, nas calçadas que falam outro idioma, estar longe da minha aldeia, ser um deles por alguns dias, em tempos de carnaval, pré, pós, mas nem sempre se pode.
Ir pra longe é tão importante quanto não perder o trajeto da volta, quando a dita cuja se fizer necessária. Ter memórias, boas e ruins, é tão importante quanto esquecê-las ou redimensioná-las. Relativizar as relações, as datas, as forras e desforras, o reflexo do espelho e o humor, aquilo que a gente merece, aquilo que alimenta um peito, toda essa força que te leva a cantar como se fosse necessário, a grandiosidade de uma só noite em comparação a tantas coisas que passam incólumes por tantos carnavais sem que sequer uma calçada sinta saudade depois.
Eu acho que é disso que o carnaval, mesmo aquele particular e fora de data, trata. Ou é assim que gosto de entender.
a maravilhosa surpresa de ser surpreendida ao reler. ou leer.
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