quinta-feira, 16 de maio de 2013

Mijada filosófica

Não sei porque cacetes de agulha, outro dia entrando no banheiro do banco onde trabalho, estava cantarolando na cabeça o "Rap do 175" do Gabriel, O Pensador. Eu sempre cantarolo alguma coisa na cabeça, às vezes coisas que não tem nada a ver com porra nenhuma, noutras vezes porque ouvi alguma palavra que lembrou uma música, enfim. Nesse dia, não consegui pensar em nada que me fizesse sequer lembrar do "Penseiro", como dizia meu pai. Me vinha o pedaço que dizia "são dois mendigos se matando pelos restos mortais, de um cachorro qualquer que foi atropelado, e vai virar rango, e se der, talvez seja assado".

Tá, não é nada genial. Mas comecei a pensar no Gabriel. Ele tinha 19 anos quando lançou seu primeiro LP. Sim, ainda era LP. Era um petardo. Letras raivosas, gigantescas, feitas por um menino burguês que gostava de se identificar com os mais pobres. Ele tinha o que dizer, não dava pra negar, mesmo que não se gostasse das canções que fazia. Mas meu pensamento foi mais por um caminho do tipo...o que se deu com Gabriel, O Pensador? Onde foi parar todo aquele talento, aquela urgência? E comecei a pensar na juventude. Não na juventude enquanto entidade, tipo a juventude da minha geração, ou a juventude na época da ditadura. Mas na juventude enquanto conceito.

Não tenho como não pensar no que o Bill escreveu há pouco aqui no Monolito, no post "O auge urge". Me refiro à passagem em que o Feu disse a ele que ele estava no auge, para aproveitá-lo. Bill refuta um pouco a idéia de auge no texto, mas acho que há um fundo de verdade nela. E inclusive acho que o próprio Bill, com seus 28 bem vividos, já passou do auge a que me refiro. Nada se compara aos vinte anos, ou ao período que vai três anos antes e três anos depois disso, com algumas exceções. Não quero ser mal compreendido. Entendo que depois disso podemos ser úteis, criativos, felizes, bonitos, profundos, poéticos, brilhantes, e tudo o mais de adjetivos que se possa pensar. Sou do tipo que acha que nunca, nunca mesmo, é tarde pra coisa nenhuma na vida. Ela é sempre pródiga em nos dar novas chances, novos horizontes, pra começar tudo de novo, igual ou diferente. Tenho uma profunda fé na vida, no que podemos fazer dela, muito mais do que tenho em Deus ou coisa assim.

Dito tudo isso, respiremos um pouco...

Volto a repetir, depois do suspiro: nada se compara aos vinte anos. A gente pode tudo. Podemos morrer no caminho, acontece com quem está numa danceteria, com quem está na estrada, com quem está na faculdade, onde for. Mas, se tivermos sorte, seremos intensos, de uma forma que depois será apenas lembrança. Pecaremos com fervor, como nunca mais. Seremos cruéis, falhos, egoístas. E depois lembraremos de tudo com um sorriso no rosto. Olho pros meus amigos, os que estavam comigo nessa época, e que por sorte ainda estão em minhas vidas, e penso: "Que grande privilégio! Estive com vocês no auge de nossas vidas. À partir de agora tudo o que vier é lucro." Porque só ali estávamos dispostos a morrer para sermos felizes. Hoje reina a cautela, o justo, o certo, a calmaria. Não porque a vida tenha deixado de ter graça, mas porque aquilo que fazíamos só era possível ali, naquele momento mágico e especial.

Me veio à cabeça também, naquele banheiro do banco, nos breves momentos de um mijo, o filme "Splendor in the grass". No Brasil ele saiu como "Clamor do sexo", talvez pra vender ingressos, mas seu nome original quer dizer "Esplendor na relva", ou algo assim. O filme é de 1961. Tinha Warren Beatty e Natalie Wood nos seus vinte e poucos. Ambos bonitos de dar medo, e devo dizer viadisticamente, com Beatty mais bonito do que Wood. O filme é sobre um namoro meio impossível entre os dois, por conta das famílias e tal. Warren Beatty exala virilidade e vontade de comer alguém, qualquer alguém. Wood é a mocinha pacata que não quer dar, porque a mãe está sempre em sua cabeça. Ambos, por mais que se amem, não ficam juntos, porque as famílias perturbam tanto suas mentes que a personagem de Wood vai parar até num sanatório. Ambos se encontram, já com as vidas encaminhadas, um casado, a outra de casamento marcado. Nada mais é possível, mas alguma chama lhes resta no olhar. A personagem de Wood diz parte de um poema, que dá nome ao filme:

"Embora nada possa nos devolver os momentos de esplendor na relva e glória nas flores, não sofreremos, ao contrário, aprenderemos com o que ficou pra trás"

É algo assim. É bonito. E triste também.

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