Enfiamos duas camas no chão do quarto, e nos postamos tal qual John e Yoko, eu e Chris, pra fazer uma maratona do Hitchcock. Acho que foram os canais por assinatura que cunharam o termo "maratona" pra se referir a uma sequência de filmes com alguma semelhança (mesmo diretor, mesmo ator, etc) ou uma sequência de episódios de uma mesma série. Sim, porque em verdade nada se assemelha menos a uma maratona do que se enfiar sob lençóis e assistir filmes. Mas, vá lá, na falta de termo melhor, fica esse mesmo.
Alugamos então quatro filmes do decantado mestre do suspense. Dois que já tínhamos visto e queríamos rever, e dois inéditos para nós dois. Os já vistos eram "Um corpo que cai" (1958) e "Festim diabóllico" (1948) e os inéditos eram "Cortina rasgada" (1966) e "Frenesi" (1972).
Na eterna discussão sobre quem é o verdadeiro autor de um filme, se é seu roteirista ou seu diretor, nos casos em que eles não são a mesma pessoa, obviamente, o gorducho Hitch é um caso à parte. Apesar de ser uma assinatura famosa ("Um filme de Alfred Hitchcock"), o bolota nunca escreveu uma linha de nenhum filme que dirigiu. Estou dando essa informação assim de cabeça, sem pesquisar, mas se não for totalmente verdade, sei que é quase totalmente verdade. Compreende? Seu negócio era filmar. Ele não precisava de grandes coisas pra fazer um grande filme. Claro que, depois de famoso, ele recebia roteiros bem escritos, pelos melhores profissionais, mas o que ele precisava era meramente de um gancho pra desfilar seu talento único em nos prender à cadeira. Ou à cama, em nosso caso particular.
Começamos com "Cortina rasgada", o penúltimo filme que ele dirigiu. Trata-se de um físico americano, que vai pra Berlim oriental em plena época da Cortina de Ferro (por isso o nome do filme, dããã), a linha imaginária que separava comunistas de capitalistas, pra roubar um segredo de um colega físico alemão. Ele tenta enganar os vermelhos, dizendo que rompeu com seu governo, mas na verdade não rompeu foi nada. A trama é bacana, mas seria um filmeco de nada em mãos pouco hábeis.
Logo depois vimos "Festim diabólico", um exercício de estilo em que o diretor faz praticamente teatro filmado. O filme quase não tem cortes, e quando os tem eles estão escondidos, mal dá pra notar. Isso porque, à epoca, cada rolo de filme durava apenas doze minutos, de modo que ficava inviável tecnicamente fazer um filme direto, sem cortes, coisa que hoje em dia é possível. Enfim, neste aqui dois amigos matam um colega de escola, escondem o corpo num baú na sala, e dão uma festa em que a comida fica em cima do referido móvel. Detalhe: ele chama para a festa os pais do morto, mais sua namorada. Eu disse que o mestre faz teatro filmado, mas em verdade há momentos de puro cinema, como quando a câmera se foca apenas no baú, enquanto a empregada começa a arrumar as louças e a pegar os livros que, sabemos, ela vai colocar dentro do baú.
Na manhã seguinte começamos assistindo "Um corpo que cai", considerado por muitos o melhor filme da prodigiosa carreira do rapaz. Revendo agora, percebo que Hitch fez quase um filme mudo. Há momentos em que ele chega a ficar, sei lá, 15 ou 20 minutos sem uma fala sequer. E, se pensarmos bem, não dá pra lembrar de muitos diálogos no filme, que tem mais de duas horas. Ainda assim, não dá pra desgrudar os olhos da tela. Coisa de gênio mesmo. Aqui James Stewart espiona a esposa de um amigo, e fica obcecado por ela, mesmo após sua morte. Ou será que ela não morreu?
Pra encerrar, assistimos "Frenesi", exemplar da fase final da carreira do cineasta. Dá pra perceber que ele já trabalha sem a censura que imperou em Hollywood durante quase todo sua carreira. Rolam uns peitinhos femininos, coisa que ele deve ter se segurado pra não mostrar durante toda sua vida, já que quase sempre ele trata de taras, voyeurismo, maníacos, etc. Isso não diminui o filme, mas também não acrescenta grandes coisas. Apenas, talvez, o torna mais natural, ou mais vulgar, a depender do ponto de vista. Aqui há um tema recorrente na carreira do cineasta: o homem inocente que é acusado de um crime que não cometeu, uma vez que, como eu disse antes, ele é inocente, porra! Um serial killer mata mulheres com uma gravata, e o coitado do protagonista estava no lugar errado na hora errada. Um filme menor do mestre, mas ainda assim muito acima da média dos filmes com temática parecida.
Depois desses quatro exemplares, o que mais me passa pela cabeça é: como é danado esse gordinho. O cara não erra uma! A imagem é a seguinte: ele tem o espectador na mão. É um conhecedor profundo da linguagem cinematográfica, e faz o que quer com seu público. Constrói a tensão sem precisar de efeitos especiais. Aliás, quando os usa, são de uma tosqueira terrível. São a única coisa que não envelheceu bem em seus filmes. Mas sua maestria é inimitável.
A se considerar a extensa filmografia do cara, não chegou a ser uma maratona, no máximo uma corrida de 100 metros rasos. Trata-se de um homem com mais de 50 filmes no currículo. Há muitas outras maratonas pra serem feitas, já que deixamos de lado clássicos absolutos como "Psicose", "Os pássaros", "Disque M para matar", "Janela indiscreta", entre tantos outros. Mas garanto que foi um fim de semana na mais fina companhia. Na cama e na tela.
Nunca me fixei em nomes de diretores, atores ou atrizes de cinema. Você bem sabe disso...rs...nem nome dos filmes que vi lembro direito...mas confesso que sou uma apaixonada pelos filmes de Hitchcock. Acho que ele conseguia fazer um filme de suspense como nenhum outro. Uma verdadeira arte. Sensações como tensão, temor ou dúvida pelo que vai acontecer em seguida, se apoderam de qualquer um que assista a um filme dele...e tudo isso mesmo vc já sabendo de antemão quem é “o culpado” ou conhecendo a história, que ele já fazia questão de deixar claro logo no início...Suspense é isso: é incerteza e ansiedade pelo que você sabe que está prestes a acontecer...Ele sabia bem a diferença entre mistério e suspense...e sabia como ninguém colocar isso nas telas...E o melhor: assistir tudo isso enroscada com o amor da sua vida...tudo de bom...
ResponderExcluirbeijos, amore