quinta-feira, 16 de maio de 2013

Mijada filosófica

Não sei porque cacetes de agulha, outro dia entrando no banheiro do banco onde trabalho, estava cantarolando na cabeça o "Rap do 175" do Gabriel, O Pensador. Eu sempre cantarolo alguma coisa na cabeça, às vezes coisas que não tem nada a ver com porra nenhuma, noutras vezes porque ouvi alguma palavra que lembrou uma música, enfim. Nesse dia, não consegui pensar em nada que me fizesse sequer lembrar do "Penseiro", como dizia meu pai. Me vinha o pedaço que dizia "são dois mendigos se matando pelos restos mortais, de um cachorro qualquer que foi atropelado, e vai virar rango, e se der, talvez seja assado".

Tá, não é nada genial. Mas comecei a pensar no Gabriel. Ele tinha 19 anos quando lançou seu primeiro LP. Sim, ainda era LP. Era um petardo. Letras raivosas, gigantescas, feitas por um menino burguês que gostava de se identificar com os mais pobres. Ele tinha o que dizer, não dava pra negar, mesmo que não se gostasse das canções que fazia. Mas meu pensamento foi mais por um caminho do tipo...o que se deu com Gabriel, O Pensador? Onde foi parar todo aquele talento, aquela urgência? E comecei a pensar na juventude. Não na juventude enquanto entidade, tipo a juventude da minha geração, ou a juventude na época da ditadura. Mas na juventude enquanto conceito.

Não tenho como não pensar no que o Bill escreveu há pouco aqui no Monolito, no post "O auge urge". Me refiro à passagem em que o Feu disse a ele que ele estava no auge, para aproveitá-lo. Bill refuta um pouco a idéia de auge no texto, mas acho que há um fundo de verdade nela. E inclusive acho que o próprio Bill, com seus 28 bem vividos, já passou do auge a que me refiro. Nada se compara aos vinte anos, ou ao período que vai três anos antes e três anos depois disso, com algumas exceções. Não quero ser mal compreendido. Entendo que depois disso podemos ser úteis, criativos, felizes, bonitos, profundos, poéticos, brilhantes, e tudo o mais de adjetivos que se possa pensar. Sou do tipo que acha que nunca, nunca mesmo, é tarde pra coisa nenhuma na vida. Ela é sempre pródiga em nos dar novas chances, novos horizontes, pra começar tudo de novo, igual ou diferente. Tenho uma profunda fé na vida, no que podemos fazer dela, muito mais do que tenho em Deus ou coisa assim.

Dito tudo isso, respiremos um pouco...

Volto a repetir, depois do suspiro: nada se compara aos vinte anos. A gente pode tudo. Podemos morrer no caminho, acontece com quem está numa danceteria, com quem está na estrada, com quem está na faculdade, onde for. Mas, se tivermos sorte, seremos intensos, de uma forma que depois será apenas lembrança. Pecaremos com fervor, como nunca mais. Seremos cruéis, falhos, egoístas. E depois lembraremos de tudo com um sorriso no rosto. Olho pros meus amigos, os que estavam comigo nessa época, e que por sorte ainda estão em minhas vidas, e penso: "Que grande privilégio! Estive com vocês no auge de nossas vidas. À partir de agora tudo o que vier é lucro." Porque só ali estávamos dispostos a morrer para sermos felizes. Hoje reina a cautela, o justo, o certo, a calmaria. Não porque a vida tenha deixado de ter graça, mas porque aquilo que fazíamos só era possível ali, naquele momento mágico e especial.

Me veio à cabeça também, naquele banheiro do banco, nos breves momentos de um mijo, o filme "Splendor in the grass". No Brasil ele saiu como "Clamor do sexo", talvez pra vender ingressos, mas seu nome original quer dizer "Esplendor na relva", ou algo assim. O filme é de 1961. Tinha Warren Beatty e Natalie Wood nos seus vinte e poucos. Ambos bonitos de dar medo, e devo dizer viadisticamente, com Beatty mais bonito do que Wood. O filme é sobre um namoro meio impossível entre os dois, por conta das famílias e tal. Warren Beatty exala virilidade e vontade de comer alguém, qualquer alguém. Wood é a mocinha pacata que não quer dar, porque a mãe está sempre em sua cabeça. Ambos, por mais que se amem, não ficam juntos, porque as famílias perturbam tanto suas mentes que a personagem de Wood vai parar até num sanatório. Ambos se encontram, já com as vidas encaminhadas, um casado, a outra de casamento marcado. Nada mais é possível, mas alguma chama lhes resta no olhar. A personagem de Wood diz parte de um poema, que dá nome ao filme:

"Embora nada possa nos devolver os momentos de esplendor na relva e glória nas flores, não sofreremos, ao contrário, aprenderemos com o que ficou pra trás"

É algo assim. É bonito. E triste também.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Pequeno Romek


Interessante como ler a biografia de alguém nos faz ficar próximos do biografado. É batata: você lê a biografia da pessoa, e em seguida fica sedento pra se aprofundar melhor no trabalho, se for um artista, ou no mínimo fica se sentindo íntimo, e quando o dito cujo aparece na TV ou coisa assim, você olha com um carinho estranho: “E aí, como você tá, rapaz? Estava com saudades”, parecemos dizer.

Terminei há pouco tempo a biografia do cineasta Roman Polanski, livro que me foi presenteado por meu irmão. Romek era o apelido dele (do Polanski, não do meu irmão, que fique claro) na Polônia, e pelo título desse texto já dá pra notar que eu estou íntimo do diretor.

 Poucas vidas se prestam mais a uma biografia do que a desse cara. Judeu nascido na França em 1933, mas criado na Polônia, já dá pra imaginar no que deu. Hitler chegou, levou pai e mãe (esta acabou morrendo nos campos de concentração, grávida de oito meses), e Polanski passou a infância fugindo, depois que seu pai conseguiu tirá-lo do gueto. Depois da guerra fez faculdade de cinema, dirigiu alguns curtas, e seu primeiro longa, “Faca na água” (1962) já foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Depois de alguns filmes e o estrondoso sucesso de “O bebê de Rosemary” (1968), uma tragédia: sua esposa Sharon Tate, grávida de nove meses, foi assassinada na casa dos dois, juntamente com mais alguns amigos, por membros da Família Manson, uma seita se maníacos chefiada por Charles Manson. Pouco menos de dez anos depois, Polanski foi condenado por “relação sexual ilícita com uma menor de 13 anos”. O diretor fugiu dos Estados Unidos antes que pudesse ser preso, e desde então é considerado um fugitivo da justiça dos EUA. Ele vive na França desde então, e recentemente acabou sendo preso na Suíça, quando foi receber um prêmio, sob a alegação de que havia um mandado internacional de prisão contra ele. Foi solto alguns meses depois.

Mas fato é que, no meio de tudo isso, Polanski dirigiu filmes. Alguns geniais, outros nem tanto. Por conta da vida atribulada, dirigiu até o momento apenas 19 longas, se não contarmos os que ainda estão em fase de produção ou pós-produção. Me propus a ver todos que pudesse achar, com a ajuda da Vídeo Vip, a minha locadora de velharias. Pra minha sorte, e surpresa, encontrei 18 dos filmes, ficando de fora apenas “Piratas”, que Roman dirigiu em 1986, e que foi um fracasso tremendo.

Assisti aos filmes entre os dias 12/03/2013 e 04/04/2013. Classifiquei-os por ordem de preferência, e divulgo a lista abaixo, do pior para o melhor, com pequenos comentários sobre cada um deles. Ao final de cada comentário, o “fator peitinho”, uma das obsessões de Romek.

Segue a lista:

18º - A Dança dos Vampiros (1967) – Romek, que bela merda, hein? Apesar da direção de arte competente, não dá pra saber se é terror, comédia, romance, suspense ou drama. Falta história ao filme. Parece que você chamou os atores, queria fazer um filme sobre vampiros, mas não tinha um enredo. Aí filmou isso aqui mesmo. Peitinho da Sharon Tate.

17º - O Último Portal (1999) – Pôxa, Romek, não é que seja terrível, é um bom filme de suspense. Mas poderia ter sido dirigido por qualquer um. Não parece um filme seu, e apesar de dividir a temática com “O bebê de Rosemary”, não chega nem perto do seu clássico. Peitinho da dublê de Lena Olin.

16º - Oliver Twist (2005) – Tá, eu entendo, você queria fazer um filme que seus filhos pudessem ver. Ok. Mas não é sua praia, concorda? E aí o filme tem criança apanhando, sofrendo, um homem matando sua esposa, o sangue escorrendo. Essa é sua idéia de filme pra criança? Porra, Romek! Mas o pior é que falta emoção, o filme é frio, e não deveria ser. Sem peitinho (só faltava, né?).

15º - Busca Frenética (1988) – Gosto muito do começo desse filme, de como você construiu o clima de tensão em uma viagem de um casal à França, em que tudo parece bem, mas sabemos que algo vai acontecer. Depois, vira um thriller apenas competente. Mais uma vez, esperamos mais de você, por isso a decepção. Peitinho da Emmanuelle Seigner.

14º - A Faca na Água (1962) – Acho que não é demérito nenhum este filme estar nessa posição. Foi uma estréia ousada e eficiente esta sua, mostrando já alguns dos temas que estariam presentes mais pra frente na sua carreira, além de sua maestria e estilo. Peitinho da Jolanta Umecka.

13º - Repulsa ao Sexo (1965) – Catherine Deneuve como uma frígida homicida. Um filme angustiante, e quase mudo. Você disse tudo através dos olhos de sua protagonista. Em seu segundo filme, um pequeno gênio começava a aparecer. Sem peitinho de La Deneuve.

12º - O Inquilino (1976) – Forma com “O bebê de Rosemary” e “Repulsa ao sexo” a sua “Trilogia do Apartamento”. A loucura chegando aos poucos para seu protagonista, que é interpretado por você mesmo. Sacaninha. Era só pra beijar a Isabelle Adjani, né? Mas sem peitinho.

11º - O Deus da Carnificina (2012) – Boa escolha de atores, Seu Romek. Com Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reily era difícil errar, não? O texto também era bom, de uma peça de sucesso. Enfim, tiro certo. Méritos seus pelo tiro. E sem peitinho, apesar de Winslet aparecer de sutiã.

10º - Macbeth (1971) – Logo depois daquela tragédia na sua vida, do assassinato da sua esposa, você me faz Macbeth? Com sua trama de assassinatos, estupros, traições e loucura? Admiro sua coragem. O filme é perfeito, ótima reconstituição de época, boas atuações, direção segura. E um textinho bom, baseado num tal de Shakespeare. Peitinho (e tudo o mais) de Francesca Annis.

9º - A Morte e a Donzela (1994) – A primeira vez que vi esse filme, com 17 anos, seus temas eram muito difíceis pra mim. A revisão me mostrou um grande estudo sobre a vingança e os traumas que a tortura faz na alma. E você mandou bem, porque com apenas três personagens fez um filme que não fica chato nunca. Peitinho de Sigourney Weaver.

8º - Armadilha do Destino (1966) – Apenas seu terceiro filme, e pra mim a sua maturidade como artista. Um tema parecido com o de seu primeiro filme (a disputa entre dois machos por uma fêmea que nem está assim tão interessada em nenhum dos dois), mas com mais recursos financeiros, e uma história mais elaborada. Peitinho de Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve.

7º - O Escritor Fantasma (2010) – Pequeno Romek, aqui você encontrou o equilíbrio perfeito que o suspense pede pra que continue suspense e não fique chato. Sabe, não é tão fácil. Você mesmo já errou nisso. Gosto de suas escolhas no filme, dos atores aos cenários. E adoro esse final, provavelmente o seu melhor. Poético e triste. E sem peitinho.

6º - Quê? (1972) – Eu sei, Romek, até você se surpreendeu agora. “Quê?” é um de seus filmes menos famosos, menos apreciados, etc e etc. Mas eu simplesmente adorei essa comédia maluca e surreal. E me diverti muito com ela. “Alice no País de Polanski” é como eu a chamaria. E ela  termina sugerindo seu próprio nome. Genial. Peitinho (durante todo o filme) de Sydne Rome.

5º - Lua de Fel (1992) – Outro filme que eu vi muito novo, e era incapaz de captar em toda sua complexidade de temas. Forte, por vezes cafona, às vezes até um pouco fabulesco, e por fim trágico, este é um filme inesquecível. Sei que também não é comumente considerado um clássico seu, mas pra mim é. Talvez o apreço de minha namorada pelo filme  tenha contribuído, confesso, Romek. E, me desculpe dizer, sua esposa está magnífica no filme, em vários aspectos. Aliás, peitinho de Emmanuelle Seigner.

4º - Tess – Uma Licão de Vida (1979) – Romek, peço desculpas pelo subtítulo nacional, realmente desnecessário. Tess já é suficiente, e a história dessa mulher é um épico emocional e trágico, que você adaptou com maestria para as telas. E apresentou ao mundo Nastassja Kinski, com uma grande atuação. E que raiva dos dois personagens masculinos que fodem com a vida dela! Peitinho de Nastassja Kinski, dando de mamar.

3º - O Pianista (2002) – Tá, Romek, eu sei que esse é seu filme preferido entre os seus. Mas pra mim ele fica num honroso 3º lugar. Seu retrato dos horrores da segunda guerra, sem concessões, é absurda e tristemente realista, graças a sua atenção aos detalhes. Saímos do filme horrorizados, mas cientes de termos visto um espetáculo dirigido por um grande artista. O final feliz que você se permite é fazer seu protagonista sobreviver. E, claro, sem peitinho.

2º - O Bebê de Rosemary (1968) – Outro que foi uma delícia rever. Visto pelo primeira vez, aos 19 anos, eu achei ele muito bom. Revisto aos 32, achei uma obra-prima. A maneira como você constrói o clima de suspense, como Mia Farrow vai mudando de aparência a medida que sua paranoia aumenta, como ela vai montando o quebra-cabeça satânico e nós vamos juntos com ela, refletem seu gênio. Isso sem falar nos contrastantes créditos iniciais em rosa, pra gente achar que tudo ia dar certo. Peitinho da dublê da Mia Farrow.

1º - Chinatown (1974) – Esse é um caso curioso. Quando eu tinha 17 anos recém-feitos, o vi pela primeira vez, sabendo que era um clássico. Gostei bastante, mas achei confuso. Tolinho que eu era, achei que a trama envolvendo falta de água, empresários gananciosos e etc,  fossem o principal do filme. Não são mesmo. Renovando a tradição do cinema noir, seu filme é mais sobre personagens, e sobre a constatação da sordidez do mundo. Um personagem querendo fazer a coisa certa em um mundo absolutamente amoral e corrompido. E ele não consegue, como quase nunca ninguém consegue em seus filmes. É chover no molhado dizer que Jack Nicholson está soberbo, que Faye Dunaway nunca esteve tão bem, entre outras coisas. Tá, vou te poupar dos clichês. Puta filme do caralho, Sr Polanski! E peitinho da Faye Dunaway...





sábado, 6 de abril de 2013

Segunda-feira




Eu não queria ir e não tinha argumento pra justificar isso. É caro. "Tenho de estudante, menos de 100 pilas". É longe. "É onde você gosta de estar e tem casa pra ficar". Não gosto de multidão. "É arquibancada, bobo, sentadão". Não sei se mereço. "Vá pra merda".

Eram 7 da manhã e chovia horrores na cidade mais bonita do mundo. Era domingo. Aos domingos também chove na cidade mais bonita do mundo. O ônibus quase vazio passa pelas Laranjeiras, e sorrio, tá ali o Flu, depois vem Flamengo, Botafogo, olha a Urca lá no fundo, sinto Copacabana por perto. Meu mp3 tem 35 músicas. Retorcidas e repetidas à exaustão em meus ouvidos solitários, e todas dele, do cara ali.

Meu amigo, fraterno mas sem abraços, abriu-me sua residência e eu estava há duas quadras, não da praia de Copacabana, mas dele. Isso me perturbava mais que a chuva. Que diminuiu, mas não deu praia. Na Globo, Palmeiras x Botafogo, meus amigos se arrumam e vão ao encontro dele.

O meu ingresso é de segunda-feira. O Palmeiras ganha, 1x0, visto a camisa e ando duas quadras. Copacabana Palace. Frenesi, jovens esperando que ele saia, e parta para o show. Sorrio em ver minha geração emulando outras. É parecido com o que já se viu nos vídeos por aí.

Um KFC e umas cervejas depois, volto pra casa, mas não tenho como assistir ao show, ao vivo e em HD, a um clique via internet. Trapaça, spoiler. Peço pra não me contarem nada, quando voltam eufóricos. "Melhor dia da vida", se limita um deles.

MP3 carregado, faz sol, é segunda, é hoje, e eu tomo sol a manhã toda, sozinho, eu e as 35 músicas, na frente do hotel dele. Bom, eu estou de sunga há 100 metros dele, isso há de ter sua relevância reconhecida. Almoço num bar com ambiente de Copa do Mundo. Dúzias e dúzias de pessoas, todas com roupas dele, bandeiras dele, dos Beatles, comem, cantam, fotografam. Eu sorrio tenso.

O encontro com meu caro amigo curitibano se dá 16h. Atrasamos. Mas lá estávamos, ainda dia, já na fila, como está o Paraná, como está SP, e o Coxa, e o Porco, entramos, 18h, para quatro intermináveis horas, eu, ele, seu irmão, uma garota que já não lembro o nome. Não tínhamos assunto, simplesmente. Lotou.

Ele aparece, suspensórios e acenos, e eu não mais sorrio. Tento lembrar quando foi que ele deixou de ser alguém que gostava para virar isso tudo dentro de mim. Doeu. Queria minha mãe ali, e o Marcílio, o Feu, queria desfrutar mas não era bem o que dava pra fazer. Chorei bastante na bandeira brasileira que o curitibano levou e não teve onde amarrar. Ver o Paul McCartney no Rio de Janeiro é mais que ver uma Final de Copa. E foi mais do que eu podia supor. Foi potente, e longo, e sobretudo bonito. Shows são caros no Brasil. Momentos inesquecíveis em uma vida não tem preço.

Saem abraçadas as várias gerações presentes no estádio. Cantam Hey Jude na rampa em caracol. Compro o broche mais feio da história para levar até mamãe. Encontro meu anfitrião. Ele foi de novo, no impulso, via cambista. Voltamos pro nosso bairro, nosso e do Paul, devoramos uma pizza, 2 litros de Coca, e caminhamos pra casa. Antes, paramos na frente do hotel.

Esperamos por algo, por alguns minutos. Tudo podia acontecer, eu achava que ele já estava lá, meu amigo achava que não. Seja como fosse, não o veríamos, não mais do que já havíamos visto. É essa coisa forte que a gente tem, que não sei como se chama, que faz uma fachada de hotel ser contemplada à espera de efetivamente nada. Ritos, gestos devotos, declarações de amor. Gratidão pelos 4 únicos homens que realmente mudaram o mundo.

terça-feira, 19 de março de 2013

Eu e os quatro


Lá estava eu em casa, um fedelho de uns 13 anos. Naquela época, 1993 ou coisa assim, pai e mãe ainda não estavam separados. Vida de estudante que morava a um quarteirão da escola. Tranquilo, com muito tempo em casa. Muitas vezes, sozinho. Antes de entrar no assunto do texto, voltemos um pouco.

Desde sempre, músicas dos Beatles rolaram em casa. Apesar de não ter consciência do que era aquilo, eu os ouvia, porque meus pais, mais o pai do que a mãe, ouviam muito. Algumas melodias ficaram gravadas na mente do pequeno que eu era, notadamente aquelas com melodias infantis, que os famosos quatro de Liverpool eram pródigos em fazer. "Yellow Submarine" seria o óbvio, mas acho que os refrões de "Maxwell´s Silver Hammer" e "The Continuing Story Of Bungalow Bill" me marcaram mais nessa época que eu nem sabia o que estava ouvindo.

Voltemos ao futuro, ou melhor, ao passado, mas não tão passado. A 1993, onde eu comecei essa porra de texto. Certo dia, do qual não me lembro perfeitamente, provavelmente sozinho em casa, comecei a mexer nos discos de meu pai. Peguei um LP quase todo branco, com quatro homens fazendo gestos com os braços. Chamava-se "Help!". Coloquei aquilo na vitrola pra ver do que se tratava. Acho que vale um adendo: nessa idade nossos gostos musicais estão sendo burilados. Eu ouvia de um tudo. Até Chitãozinho e Xororó. Que são bons no que fazem, diga-se. Meu pai e minha mãe nunca foram tiranos, em nada, muito menos em música. Não me forçaram a gostar de música boa, da música que eles gostavam. A coisa foi natural. Mas tergiverso. Fato é que, daquele dia em diante, fiquei fã. Não dos Beatles, em princípio. Fiquei fã do "Help!". Ouvia o "Help!" todo dia, mais de uma vez por dia.

Eu disse antes que meu pai era mais fã dos Beatles do que minha mãe. Mas tenho uma memória belíssima em relação a "Help!" e à minha mãe. Fui ajudá-la com as compras no Carrefour, único supermercado de São José dos Campos à época. Era o início da era dos CD´s, que acabariam por exterminar os LP´s, mas que também não durariam muito, sendo exterminados por...bem, por nada, por um consumo de música sem critério e sem fichas técnicas, que reprovo, mas entendo como natural da evolução (ou involução?) humana. No referido mercado, demos uma passada pelo setor musical, onde vi o cd do "Help!". Acho que fiz algum comentário, mas passamos batido. Pouco depois, quando começávamos as compras de fato, olho para o carrinho e percebo, maravilhado, que o cd estava lá dentro, dançando sozinho, sem mais nenhuma compra ao seu lado. Mamãe tinha pego um, sem que eu percebesse. Foi meu primeiro cd dos Beatles.

A partir daí, não parei mais. Depois do "Help!", parti para os outros discos da bandinha. Ia pegando um por um, em casa, maravilhado com cada descoberta que fazia. Não sabia a ordem que os discos haviam saído, apenas ia pegando o que estava ali na estante, e degustando, sentindo os sabores. Ah, que inveja daquele menininho, ouvindo pela primeira vez, com atenção, às peças saídas das cabecinhas cabeludas daqueles quatro. Ouvi cada LP incessantemente. Traduzi grande parte das canções com a ajuda de um dicionário, e posso dizer que os Beatles são parcialmente responsáveis pelo meu razoável domínio da língua inglesa.

De lá pra cá, virei beatlemaníaco. Não sei quando uma pessoa deixa de "gostar dos Beatles", ou "achar os Beatles legais pra caralho", e vira beatlemaníaco.

Se alguém me disser "Ring my friend I said you call...", eu vou dizer "Dr Robert!". Quando atendo velhinhos lá no banco, fico procurando alguém que tenha nascido em 09 de outubro de 1940, como John Lennon. Ainda não encontrei. Imitando meu amigo Lucas Nanini, também beatlemaníaco, quando alguém me pergunta a maior banda da Terra, eu respondo Belle & Sebastian (ele responde Led Zeppelin), porque os Beatles estão em um patamar acima. Noel Gallagher (vocalista e compositor da banda Oasis, que Deus a tenha) disse que das 50 maiores músicas pop de todos os tempos, 49 são dos Beatles, e a 50ª é "Wonderwall", da banda ele, e é mais ou menos o que penso, tirante o fato de que "Wonderwall" perderia lugar na 50ª posição para "Sexy Sadie".

São coisas assim que fazem um beatlemaníaco, acho. E por esse privilégio agradeço aos óbvios John, Paul, George e Ringo. E aos menos óbvios papai e mamãe.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Quieto

Tá certo, excesso não é pecado
Só estou falando menos
Que é pra ser mais escutado

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O retorno de Lauro Ribeiro

- Sr Lauro Ribeiro.

Era ele? Era ele mesmo? Ele não sabia mais que aquela pessoa, com aquele nome, era ele. Sentiu algo parecido com espanto. Como se fosse jogado, de repente, de volta à realidade, há quarenta anos, quando ainda era, de fato, Lauro Ribeiro. Ali, na fila do INSS, onde se encontrava, ele voltou a ser, de repente, Lauro Ribeiro. O que mais lhe fazia falta era o Lauro, em verdade. Ribeiro era como lhe chamavam na fábrica. Ribeiro pra lá, Ribeiro pra cá. O mecânico Ribeiro, que atendia aos chamados também mecanicamente. Em casa ninguém mais lhe chamava. O filho único saiu de casa assim que pôde. A mulher não tinha motivos pra chamá-lo.

A funcionária do INSS chamou mais algumas vezes seu nome, mas Lauro demorou a se mover. Estava em outra dimensão. Ela lhe pediu o RG. O RG de Lauro era velho. Tinha sido expedido há trinta anos. Mas não era difícil reconhecê-lo. Estavam ali os olhinhos assustados, iguaizinhos aos que Lauro trazia no rosto. A moça chegou a fazer menção de dar uma bronca em Lauro, por conta de o RG estar muito defasado, mas logo reconheceu os olhinhos da foto à sua frente. Não havia dúvida. Aquele homem assustado do documento, que poderia estar assim por conta do flash da foto, na verdade era mesmo assim.

Lauro saiu do prédio, e caminhou um tempo sem direção. Caía uma chuva bem fina. As pessoas passavam por ele, indiferentes. Lauro repassou toda sua vida enquando andava. Quase foi atropelado. Uma buzina o fez acordar. Seus olhos sempre aflitos nunca mudavam de expressão, mas agora havia um esgar de choro. Quando percebeu os olhos marejando, tentou se lembrar da última vez que havia chorado. Não conseguiu. Não se lembrava de ter chorado na vida adulta. Não fez força pra segurar as lágrimas, que vinham à toda, bochecha abaixo. Um carro grande, tipo picape, parou a seu lado, freando em um semáforo. Lauro se viu refletido no grande vidro do carro. Aquele era Lauro. Seu olho brilhava de choro. Mas, estranhamente, não parecia mais assustado. O semáforo abriu. O carro se foi. Lauro ficou. E Lauro sorriu.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O carnaval e as calçadas



Seria esta uma carta sobre carnaval. Que não tem mais a ver com a minha vida. Na minha (em todas?) cidade você mede a temperatura do carnaval pela calçada, pela sarjeta, e não estou falando do lixo, mas de algum rastro que fica, alguma pista abstrata que te faz ir pra lá ou pra cá, isso se for sua ventura estar no carnaval sem destino definido, e só assim se está efetivamente num carnaval, e, sendo o caso, é a calçada que te diz algo, seduz ou sugere, e se você entende o que ela fala e a rua sem carros atesta e reforça, então é porque você tem memórias - ou intuições - por dentro, memórias de outros carnavais, sensações abstratas de coisas e temperaturas que remetem a dias felizes, e é só o que o carnaval, meio exagerado e febril, tenta reproduzir: um tosco retrato de dias felizes somado ao melancólico e claro sinal de que podia ser sempre assim, festa, liberdade, calçadas e copos americanos até uma quarta-feira de cinzas que nunca chegaria com sua ressaca e sua desaceleração brusca que nos chama de volta tal qual os momentos tristes fazem nuns dias soltos por aí.

Daí que as andanças ganham algum motivo, uma andança documentada, uma andança estrangeira mas com passaporte no bolso, tá aqui, seu guarda, ó, este é meu passaporte dizendo que tenho boas memórias de tempos felizes e por isso posso andar por estas calçadas livremente no meio dessa gente legal e legalizada, meu visto de permanência se encerra em breve, eu sei, é na próxima quarta-feira, pode ficar tranquilo, não estou aqui para causar problema, não procuro por isso, eu obedeço.

Não procuro por nada. Preferia perder algo que tenho sem almejar ao invés de achar algo que supostamente deveria desejar. Se eu fosse jovialzão e persuasivo isso se chamaria independência, desapego fodido, aplausos pra ele, mas não é o caso, o passo é um pouco mais rústico e menos belo, então troca o termo, sai o independente, entra o sozinho, afinal a noção de liberdade que se tem atrás das portas por aí é parecida com a idéia de evolução, isso é, quem não quer nada concreto da vida mas é bacanudo e proativo e positivo e otimista e oportuno, então este alguém é livre, liberto dos signos e necessidades, um sujeito melhor, mas quem não quer nada e não ambiciona nem range os dentes num discurso aguerrido de futuro planejado, ah, este não é livre. É preso.

O preso que digita, então, andou pra cima e pra baixo, Augusta, Santa Cecilia, Roosevelt, Paulista, Frei, Diabos, e era como se o peso da voz mais doce do mundo ainda ricocheteasse na cabeça, "você parece preso", mas os pés, carimbando cada calçada, cruzaram bêbados todo um perímetro mágico aos livres e verdadeiro aos presos, e cruzaram sem passaporte, ilegal e sem benção, nem lei nem deus, nem perguntas nem respostas, e isto é uma vitória sem troféu, chegar no destino que nunca existiu.

Inimigos despistados, mundo a calmo, os pés audazes param de andar e se escoram nos calcanhares, como se fosse de propósito. Ainda ilegal, mas agora sem medo. Ainda ilegal, mas agora cúmplice. A cabeça finalmente copia os pés, sente-se bem.  Os lábios copiam dos pés à cabeça os pés e a cabeça , e carimbam a noite noutros lábios, outrora ilegais mas agora não mais. É legal e sem polícia, a independência é prerrogativa, a solidão é ditadura e atraso, somos ricos benditos e bem-ditos, nativos daquela calçada sem pecado nem perdão. E nem era carnaval.

Agora, que é - e foram tantos - carnaval, sinto que a contradição me bate deliciosamente à porta e que o pulo do gato foi antecipar a andança, aproveitar a calçada ainda morna de uma quarta-feira comum e vadia, sem Cinzas, longe dos sábados, sem a obviedade que mata o pouco que sobrou de meu lado espontâneo soterrado por um par de ombros tensos e tortos e corcundas. O carnaval me frustra de alguma forma, talvez porque eu tenha ficado preso nele alguns anos e, ao sair dele, tenha deixado pra trás algo que não devia. Talvez também porque o carnaval simplesmente não é verdade, é um delírio coletivo, mas eu sinceramente não acredito nessa segunda tese. Preciso confiar que sou da turma do delírio, e não dos fatos reais. Da turma da liberdade, não do pragmatismo. Preciso crer que é possível ser um cara legal mesmo sendo chato - ela me disse algo mais ou menos assim, que sou chato mas sou legal, então eu acredito.

Nesse e em todos carnavais, muitos vão se perder no coração de mulheres que darão, na falta de uma calçada que fale e um trio elétrico que fuja, uma direção a se andar, pelo menos e provavelmente até o Rei Momo devolver as chaves da cidade ao prefeito. É da cultura dessa gente, o amor ligeiro e cafona vestido com plumas e a permissividade que falta nos meses de junho, julho e tal. Sou um infiltrado. Vou ver como é, de perto. Juro que gostaria de viver a vida que não vivo, de correr sempre pro cenário ideal, cruzar os arcos ao invés da Augusta, ver a Urca entardecer e não a Santa Cecília, andar por Botafogo e não Higienópolis, me perder, não no coração de mulheres mas nas ruas efetivamente, nas calçadas que falam outro idioma, estar longe da minha aldeia, ser um deles por alguns dias, em tempos de carnaval, pré, pós, mas nem sempre se pode.

Ir pra longe é tão importante quanto não perder o trajeto da volta, quando a dita cuja se fizer necessária. Ter memórias, boas e ruins, é tão importante quanto esquecê-las ou redimensioná-las. Relativizar as relações, as datas, as forras e desforras, o reflexo do espelho e o humor, aquilo que a gente merece, aquilo que alimenta um peito, toda essa força que te leva a cantar como se fosse necessário, a grandiosidade de uma só noite em comparação a tantas coisas que passam incólumes por tantos carnavais sem que sequer uma calçada sinta saudade depois.

Eu acho que é disso que o carnaval, mesmo aquele particular e fora de data, trata. Ou é assim que gosto de entender.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Resposta ao primeiro post deste novo blog

Era um feriado prolongado, e eu fiquei sozinho em casa. Namorada no Rio de Janeiro, mãe na Praia Grande. Acho que era um sábado, e minha vontade era beber umas cachaças enquanto ouvia música. Simplesmente iria passar pelos meus cd´s, ouvindo uma ou duas músicas de cada, enquanto me embriagava. É uma sensação deliciosa beber quando se está com o espírito tranquilo, como era meu caso. Eu iria deixar a música entrar pelos meus poros, sentindo aquele leve torpor que o álcool dá.

Fui então ao supermercado, porque precisava de algo pra forrar meu estômago, uns piriris, pra comer enquanto tomava minhas caipirinhas. Cheguei ao estacionamento do mercado, e havia ali uma Kombi de entrega de mercadorias, ou coisa assim. Quando eu passei pra entrar no mercado, tocava "The winner takes it all", do ABBA, no som do veículo. Gostei de ouvir aquela canção, parecia já um começo da minha programação. "É raro alguém ouvindo ABBA, deve estar tocando no rádio", pensei. Um vez dentro do mercado, acho que acabei comprando os famosos nuggets, ou coisa que o valha, além de uns espetinhos de salsicha, azeitona e ovo de codorna, que me custaram 20 paus. Ainda cantarolando "The winner takes it all", saio do mercado, e a mesma Kombi permanecia estacionada, agora tocando "Mamma Mia!", também do ABBA. Senti uma alegria boba, apenas por saber que o cara estava ouvindo um cd, ou um MP3, que seja, do ABBA. Sorri sozinho.

Cheguei em casa e comecei a me preparar pra noitada. Fiz minha primeira caipirinha e dei um gole inicial. Numa fração de segundos, muitas coisas passaram pela minha cabeça, como "caralho, o limão tá estragado", "tô com alguma doença e perdi meu paladar!" e "puta que o pariu, essa cachaça deve ser gasolina!", até que, completando um segundo e meio de raciocínio, me veio o óbvio: "Caraleo, fiz a caipirinha com sal!". Gargalhei. Literalmente, e muito. É conselho: nunca façam uma caipirinha com sal no lugar de açucar. Quando o cara criou a caipirinha ele deve ter tentado isso, mas descartou a idéia rapidamente.

Já instalado no meu pufe, com minha caipirinha feita com limão, cachaça, açucar e gelo do lado, comecei a ouvir música. Em uma delas, me lembrei do Bill. Sei que ele gosta da música, chamada "Adia", cantada pela Sarah McLachlan. Mandei SMS pro referido caboclinho, dizendo algo como "Ei rapaz, ouvi Adia e lembrei de você". Fazia um tempo que eu não falava com ele, estava com saudades, e depois de mandar a mensagem comecei a pensar no nosso Monolito. Começou a me dar vontade de escrever de novo, junto com ele, como tínhamos deixado de fazer não se sabe bem porquê. Não liguem, eu até hoje não aprendi a usar aqueles quatro "porques" que a língua portuguesa tem. O fato é que pensei "se ele me responder a mensagem, vou falar pra gente retomar o Monolito". Ele não respondeu, e meu metodismo me disse que, se ele não respondeu, não era pra ser, então não falei mais nada.

Até que, no Natal, me veio esse texto aí abaixo, "Novo de novo", de presente. E eu pensei que as coisas acontecem quando tem que acontecer, por besta que pareça isso. A gente põe sal no lugar de açucar quando está precisando dar uma boa gargalhada. A gente ouve ABBA no carro de entrega do mercado, ao invés do Luan Santana ou do Michel Teló, quando o que precisamos é de beleza na noite. Só temos que estar atentos a ela. Estamos de volta, caro primo. Às belezas, às tristezas. Estamos de volta, sim, caro irmão.

domingo, 20 de janeiro de 2013

O silêncio que precede a explosão


É um burburinho e não é como a praça de alimentação de um shopping, mas harmônico e ritmado. Altos e baixos consonantes que quase matam aquele que, sem os olhos, só tem os ouvidos e só pode escutar aquilo que na verdade precisava ver para dar sorte, ver para crer. O reino dele por uma onda de gritos que venha lá de dentro e que num eco capaz de tremelicar o bairro consagre as duas horas, ou mais, de espera irredutível.

Muitos andam perdidos como ele. Somando pessoas e fantasmas temos uma multidão. Outros sentam, num inevitável tédio, comidos pela sensação de que a eternidade vai chegar antes do gol. O pipoqueiro está indiferente e alheio. É um alienígena no conceito dos demais. O policial não pode nem ligar o rádio e colocar o fone, e mesmo que pudesse, quem aguenta? Poucos suportam o drama que os narradores criam, cruéis, armados pela suposição que o ouvinte não tem outra saída que não seja acreditar no que ele diz.

Por vezes penso que namoradas de narradores de rádio nunca se recuperam. As construções de cenários desnecessariamente eletrizantes, a condução do fluxo de consciência rumo ao enfarto, a visão de mundo espetacularizada de momentos comuns, isso tudo deve deixar sequelas, tão quanto o futebol deixa - e como deixa, saiba você que depois de um certo número de jogos vistos toda quina e todo pedaço de ferro ou couro e todo batente e todo retângulo e toda meia-lua lembram futebol no primeiro reflexo mental.

Três admiráveis garotas com o estereótipo de um shopping, e não de um estádio, emolduram a universalidade do momento e sofrem na sarjeta. Os óculos escuros, os inhôcos nos cabelos para prendê-los e afastar o calor que vem de dentro pra fora, as bolsas esparramadas na calçada e a angústia que em corpos femininos fica tão mais dramático e fidagal. Uma delas ajoelha vez ou outra. As demais parecem entregues, paralisadas como se nada mais houvesse a ser feito, o que não as impelia, entretanto, a irem embora. Pois o futebol é a fé do ateu e a casa de praia dos milagres dessa vida.

Lá está o careca que comprou ingresso falso e deu entrevista babando, literalmente babando de raiva, para uma jornalista que, coitada, tem acesso ao estádio e não pode entrar, tampouco dar pro careca. Dar a entrada à arquibancada, claro. Ele anda pra lá e pra cá, ou então são muitos carecas que lá estão. É notável o número de carecas que acompanham este esporte, não tenho estudos mas na certa a porcentagem de carecas que amam futebol é maior que a de cabeludos.

O careca, e todos os outros, viram algumas pessoas saindo do templo antes do fim da peleja. O careca quis matar todos, um por um e com as próprias mãos, mas optou por olhar o semblante de alguns na expectativa de encontrar respostas, e encontrou: a coisa estava preta. Entre os que saíam, haviam tipos e tipos. Alguns, estafados após uma semana correta e educada diante de patrões e clientes, não aguentaram a perspectiva iminente de um domingo sem a catarse que daria sentido e absolvição aos dias pregressos e também aos futuros. Quem os julga?

Outros saíram simplesmente porque não aguentavam mais a tortura da espera, não de 90 minutos, mas de alguns anos, talvez os melhores e mais vívidos anos, que só não foram melhores porque a bola, colecionando cenas feias um réveillon depois do outro, nunca entrou. Os olhos chicoteavam a alma e enlouqueciam a cuca. Eles saíam pela rampa e deitavam, desabavam, na parte de fora do gigante com refletores já acesos. Quando o dia está raiando, meu bem, é preciso ir embora.

Os vendedores de cerveja, de bandeira, já estavam posicionados. Os guardadores de carro já tinham se mandado. O lusco-fusco das 18h05 não deixava mais sombra no chão, nem sombra de dúvidas. Era o fim, um fim repetido com cheiro de pernil vindo da barraquinha fumacenta e experiente.

No entanto a certeza maior desse fim vadio vinha, ainda, do som. O tal do burburinho, dos gritos e cantos, dos "ús" e "ês". Não era mais detectável. Cada um berrava por si e sem cadência. A harmonia também já se mandara. No desespero todo mundo recorre à estupidez da individualidade.

Mas no futebol tem um negócio que qualquer ouvido decifra. É uma fração de segundo que dura tanto, tanto. É o silêncio mais absoluto que uma multidão pode fazer junta, o silêncio que nenhum padre ou general jamais vai conseguir extrair de sua turma. Trata-se do silêncio que precede o gol. Entre o chute e o balançar da rede. Pra não incomodar a gorduchinha nem atrapalhar o destino, eles sequer respiram. Tudo cala e tudo para, menos a bola, que parece decidir o que quer da vida.

Depois de negar um bom natal para esta gente por tantos anos seguidos, dessa vez ela entrou. No último minuto, mas entrou.

O silêncio que precede a explosão do gol foi sentido lá de fora. Pra depois ser soterrado pelo urro vital, a onda sonora que emaranhou o cabelo das meninas e arrepiou a careca dos rapazes. Pra depois ser confirmada por alguns corajosos com radinho de pilha: foi gol. Pra consagrar o vendedor de cerveja e encher o policial de um trabalho que ele vai cumprir com prazer.

Câmera alguma registrou o quanto correram e pularam aqueles do lado de fora.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Fim de semana com o gorducho

Enfiamos duas camas no chão do quarto, e nos postamos tal qual John e Yoko, eu e Chris, pra fazer uma maratona do Hitchcock. Acho que foram os canais por assinatura que cunharam o termo "maratona" pra se referir a uma sequência de filmes com alguma semelhança (mesmo diretor, mesmo ator, etc) ou uma sequência de episódios de uma mesma série. Sim, porque em verdade nada se assemelha menos a uma maratona do que se enfiar sob lençóis e assistir filmes. Mas, vá lá, na falta de termo melhor, fica esse mesmo.

Alugamos então quatro filmes do decantado mestre do suspense. Dois que já tínhamos visto e queríamos rever, e dois inéditos para nós dois. Os já vistos eram "Um corpo que cai" (1958) e "Festim diabóllico" (1948) e os inéditos eram "Cortina rasgada" (1966) e "Frenesi" (1972).

Na eterna discussão sobre quem é o verdadeiro autor de um filme, se é seu roteirista ou seu diretor, nos casos em que eles não são a mesma pessoa, obviamente, o gorducho Hitch é um caso à parte. Apesar de ser uma assinatura famosa ("Um filme de Alfred Hitchcock"), o bolota nunca escreveu uma linha de nenhum filme que dirigiu. Estou dando essa informação assim de cabeça, sem pesquisar, mas se não for totalmente verdade, sei que é quase totalmente verdade. Compreende? Seu negócio era filmar. Ele não precisava de grandes coisas pra fazer um grande filme. Claro que, depois de famoso, ele recebia roteiros bem escritos, pelos melhores profissionais, mas o que ele precisava era meramente de um gancho pra desfilar seu talento único em nos prender à cadeira. Ou à cama, em nosso caso particular.

Começamos com "Cortina rasgada", o penúltimo filme que ele dirigiu. Trata-se de um físico americano, que vai pra Berlim oriental em plena época da Cortina de Ferro (por isso o nome do filme, dããã), a linha imaginária que separava comunistas de capitalistas, pra roubar um segredo de um colega físico alemão. Ele tenta enganar os vermelhos, dizendo que rompeu com seu governo, mas na verdade não rompeu foi nada. A trama é bacana, mas seria um filmeco de nada em mãos pouco hábeis.

Logo depois vimos "Festim diabólico", um exercício de estilo em que o diretor faz praticamente teatro filmado. O filme quase não tem cortes, e quando os tem eles estão escondidos, mal dá pra notar. Isso porque, à epoca, cada rolo de filme durava apenas doze minutos, de modo que ficava inviável tecnicamente fazer um filme direto, sem cortes, coisa que hoje em dia é possível. Enfim, neste aqui dois amigos matam um colega de escola, escondem o corpo num baú na sala, e dão uma festa em que a comida fica em cima do referido móvel. Detalhe: ele chama para a festa os pais do morto, mais sua namorada. Eu disse que o mestre faz teatro filmado, mas em verdade há momentos de puro cinema, como quando a câmera se foca apenas no baú, enquanto a empregada começa a arrumar as louças e a pegar os livros que, sabemos, ela vai colocar dentro do baú.

Na manhã seguinte começamos assistindo "Um corpo que cai", considerado por muitos o melhor filme da prodigiosa carreira do rapaz. Revendo agora, percebo que Hitch fez quase um filme mudo. Há momentos em que ele chega a ficar, sei lá, 15 ou 20 minutos sem uma fala sequer. E, se pensarmos bem, não dá pra lembrar de muitos diálogos no filme, que tem mais de duas horas. Ainda assim, não dá pra desgrudar os olhos da tela. Coisa de gênio mesmo. Aqui James Stewart espiona a esposa de um amigo, e fica obcecado por ela, mesmo após sua morte. Ou será que ela não morreu?

Pra encerrar, assistimos "Frenesi", exemplar da fase final da carreira do cineasta. Dá pra perceber que ele já trabalha sem a censura que imperou em Hollywood durante quase todo sua carreira. Rolam uns peitinhos femininos, coisa que ele deve ter se segurado pra não mostrar durante toda sua vida, já que quase sempre ele trata de taras, voyeurismo, maníacos, etc. Isso não diminui o filme, mas também não acrescenta grandes coisas. Apenas, talvez, o torna mais natural, ou mais vulgar, a depender do ponto de vista. Aqui há um tema recorrente na carreira do cineasta: o homem inocente que é acusado de um crime que não cometeu, uma vez que, como eu disse antes, ele é inocente, porra! Um serial killer mata mulheres com uma gravata, e o coitado do protagonista estava no lugar errado na hora errada. Um filme menor do mestre, mas ainda assim muito acima da média dos filmes com temática parecida.

Depois desses quatro exemplares, o que mais me passa pela cabeça é: como é danado esse gordinho. O cara não erra uma! A imagem é a seguinte: ele tem o espectador na mão. É um conhecedor profundo da linguagem cinematográfica, e faz o que quer com seu público. Constrói a tensão sem precisar de efeitos especiais. Aliás, quando os usa, são de uma tosqueira terrível. São a única coisa que não envelheceu bem em seus filmes. Mas sua maestria é inimitável.  

A se considerar a extensa filmografia do cara, não chegou a ser uma maratona, no máximo uma corrida de 100 metros rasos. Trata-se de um homem com mais de 50 filmes no currículo. Há muitas outras maratonas pra serem feitas, já que deixamos de lado clássicos absolutos como "Psicose", "Os pássaros", "Disque M para matar", "Janela indiscreta", entre tantos outros. Mas garanto que foi um fim de semana na mais fina companhia. Na cama e na tela.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O auge urge

Uma ignorância que, vi depois, era proposital, filha preguiçosa do absoluto desinteresse no mínimo raciocínio, sapateou na cabeça segundos antes do mergulho. Algum receio estúpido de correr um risco impossível, um sinal inequívoco do quanto um cérebro urbano, ou pior, paulistano, consegue se apequenar diante do anódino. Fato é que não foi um pulo de peito aberto, tal qual o camarada Feu acabara de fazer, molhando infame as duas gringas e o rapazote que descansavam no pier como se a vida estivesse ganha, e estava. Foi com medo, o salto.

Ora, era um rio, um riacho, nada mais. Um canal. Era água. Tão natural quanto a vida quase nunca é, sem qualquer menção de segredo ou truque. Você cai na água e nela fica, pra lá, pra cá, e tira a sua chinfra. Ali estava meu primeiro riacho na vida adulta, o que em primeira instância não quer dizer nada, e em segunda também não. O Feu, ali no rio comigo, pouco antes dissera sobre mim, ou para mim, na verdade a respeito da minha idade, que era pra eu me ligar, você tá no auge, moleque, e eu fiquei pensando nesse tal de auge, que porra é essa de auge, enquanto boiava nas águas calmas. 

A Raquel, por exemplo. Nos convidou para um forró. Depois para uma praia deserta. Ela adorava sinceramente ambos os cenários, respectivamente um cativeiro e um atalho para o nada, onde fomos enfiados, qual o quê, praia mole, joaquina, o john bull e seu letreiro gigante nada significam pra Raquel e seu gosto alternativo. Temos, suponho presunçoso, idades parecidas, e eu não quero criar antagonismos entre nós, só sugerir que esse negócio de auge, de ponto alto, seja uma trapaça retórica, tão subjetivo, ou impreciso e mentiroso quanto uma página de horóscopo, e eu não quero comprar briga com quem acredita nisso, mas dar um golpe nessa coisa de cronologia, de vida temporal. 

Porque se estamos falando de um relógio, e os 28 anos são o tal do auge, e o tempo não dá tempo, e a gente se pretende seguir e envelhecer, então eu sinto pressa, urgência, estou sendo empurrado e não gosto, o Feu também sente e me disse sentir, e isso não é certo. Se é assim, então concluo que o auge urge, e não devia, pois assim se sabota no mesmo instante. O auge demanda paz, não pressa.

É uma colônia de pescadores, com ruas apertadas, paralelepípedos e gente andando neles, local de rendeiras e matutos, onde eu escolhi estar sem muito a esperar. Debaixo de um maldito e bendito ar condicionado companheiro no não-sono, através de alguns cliques no celular e um pouco de coragem e sensatez, pincelei um 2013 que, tacanho, neguei a mim mesmo em 2012. Recebemos visitas, das quais uma ficou e outra, ao menos, me abraçou, gesto que acompanha o perdão, sempre. A comovente bagunça que sou capaz de fazer em quartos que se propõem meus não se alterou. Sinal de adaptação, em contraponto ao riacho, a tudo que não era meu e ao sotaque que não sei imitar.

Não faltava muito para dar meia-noite quando ela apareceu com flores roubadas pra jogar no mar, Iemanjá e tal, e rosas vermelhas estampadas no vestido sem alças. Mergulhou mais de uma vez, inclusive, ao passo que o rapaz que aparecera junto, alucinado, não só mergulhou como voltou pra casa à nado, pelo canal. Eu, seco, curtia a lua, calculava coincidências possíveis e pensava, afinal, por quê não o auge, por quê não agora? "Feliz ano novo, meu irmão", disse o primeiro a falar comigo em 2013, apertando meu pulso com uma mão e me dando a batida de abacaxi com a outra. Ele virou o ano fazendo uma batida pra mim e isso é tão banal e legítimo quanto explodir um rojão. Dizem que os rojões afastam os maus espíritos. O meu estava aquietado com a idéia, metade banal metade bestial, de assumir todo esse otimismo aí, reveillón deve servir pra isso, afinal, abracemos alguma palavra de ordem que seja boa, e se a vida se apresenta boa, então que se torne maravilhosa e sem muitas conexões com o mundo real, aquele lá atrás, duro e faminto e que corta o barato de quem não relaxa. 

Mergulhos desastrados em mares revoltados houveram de pintar e fizeram rir e brincar. Mais tarde, noutra praia e estado, naquele mar que ainda é meu, foram vários os minutos sem uma onda sequer nem vestígio de pessoas. Água calma com chão de areia grossa, tão parecido com o riacho pouco familiar de dias antes. Mergulhos novos dão medo, ainda que pareçam mais do mesmo, triviais, e  mesmo que não dêem, causam alguma espécie de coisa qualquer, que é da hora, não a gíria, mas da hora que o relógio  não capta, da chance e da opção que surge de, se tiver presença de espírito, desligar e desfrutar daquilo que criou pra si. Estando onde se esforçou pra estar, porque quis estar, sem outros motivos. Estas coisas que não podem ser corriqueiras. Quando mergulhei, literalmente de cabeça, no colo dela, pra dormir, pro tempo passar, pra 2013 enfim começar sem fantasias, me peguei debochando de novo dessa coisa de auge, essa hipérbole, essa forçada de barra só pra se sentir legal - como se isso fosse pouco. Mas aí veio o cafuné no cabelo, preguiçoso e previsível, sintético portanto, e o deboche, com 2012 motivos para sumir, ficou pra trás, em algum lugar da BR que eu já não sei qual era mas que passei, trazendo na mala um ano e um motivo a mais pra seguir.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Acidente

Há alguns dias atrás,
Sofri um acidente
E morri.
Mas em compensação,
Foi o último acidente
Que sofri.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Novo De Novo


Meu irmão,

Eu pensei algumas vezes em te responder alguma coisa. Cheguei a digitar frases no celular, tinha torpedo à vista. Eu queria dizer sobre a emoção, contida e até confusa, de ser um tal compositor, que você, causando pasmaceira neste, forjou a partir de mim, que você inventou pegando minhas letras. Contida pois já ouvira antes, e ao vivo contigo é melhor que em qualquer estúdio. E confusa, já que o tempo passa e a gente mal se reconhece em algumas coisas que afirmou no passado. Seja como for, eu tenho CD, com encarte, que toca música, e são minhas, e suas, que você deu vida ao pôr acordes, e deu eternidade ao levá-las a um estúdio e gravá-las.

Eu precisava de algo maior no intuito de te explicar que meu caminho pra mensurar isso foi longo. Não bastaria dizer que gostei. Foi mais que um presente. Essas coisas tem um remelexo a mais. Fiquei saudoso, reflexivo, experimentei alguns raciocínios até mais elaborados, sérios, sobre as coisas que deixamos de falar, e tal, e coisa. Bom. Meus dedos não evoluem e ainda perdem pra pestana, o violão é tão intocável quanto a musa que mora no 540, ainda. Escrever, ainda que sem reforma ortográfica e com inspiração altamente duvidosa, eu sei. Posso fazer um blog, mas não gravar um CD. Tudojuntices. Eu tenho músicas gravadas. Como foram? Bom, eu tinha um blog, e nesse blog eu colocava textos e poesias, foi meu primo, que sabe fazer música, que teve a presença de espírito de musicar algumas coisas. E este blog, onde está? Ah, ele parou. Porque? Porque talvez fosse a hora, naturalmente parou.

Eu te digo que é hora de voltar. O presente que você me deu, tão valioso, só existiu graças ao Monolito existir antes dele. Eu quero que volte, como um ato de semeio, e sabe lá o que vamos colher quando o tempo passar. Você topa? Sei lá com que regra, se com regra, de que tipo, com que forma, com qual publicidade, com que estilo, frequência, com quais parceiros, amigos, convidados, com que tipo de séries, divisões, enfim. Que ele tenha vida, o Monolito. O Novo Monolito, de novo.

É assim que resolvi agradecer seu presente. Era bom e vai voltar a ser. Te ler, te sentir mais perto, entender e confundir, me perder no coração que digita mais perto do meu, que é o seu.

O blog está aqui. As senhas, a gente troca depois do abraço.

Do seu irmão.